quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Robert Enke, morte por suicídio






Recebi a chocante notícia esta manhã ao entrar no automóvel e ligar maquinalmente o rádio como faço todos os dias. «Morreu o antigo guarda-redes do Benfica, o alemão Robert Enke», dizia o locutor com voz grave. Aparentemente de suicídio, aos 32 anos de idade. Não vou escrever muito já que não sinto essa necessidade para exprimir o meu pesar por tão trágico desenlace para a vida de um homem que aparentemente tinha tudo e afinal, uma grave depressão, segundo confirma a sua mulher, levou a que o mundo soubesse da pior forma que Enke não tinha mais nada que o fizesse querer viver. E escrevo apenas para reafirmar o óbvio, aquilo que todos nós já sabemos. Quantas vezes amigos nossos, colegas de trabalho, simples conhecidos, pessoas que são ou nos foram muito chegadas não sofrem de males da alma, nos pedem auxílio num silêncio ensurdecedor, pedido esse que voluntariamente ignoramos virando as costas com uma frieza cruel a quem bastaria um simples gesto para ajudar a devolver alguma esperança? Desculpem a simplicidade destas palavras, mas nestes momentos gostaria muito de ter a capacidade de poder desligar o complicómetro da vida.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Esmeralda




[The Travel of Romance, 1994 - Eric Fischl]



Esmeralda era uma rapariga dos diabos, rija como o aço. Logo pela madrugada comia uma ou duas sandes de carapaus fritos com as espinhas a fazer lembrar arame farpado que a lida na quinta onde dava serventia assim o exigia. E embora fosse evidente que não arrebanhava o gado todo, era mulher de colhões d’aço, tal como o referia o Padre Zé Bento. Casou por três vezes mas todos os maridos sucumbiram aos enxertos de porrada que lhes dava deixando-os a queixarem-se da coluna e a passarem mais tempo nas enfermarias com as mazelas que a moçoila lhe provocava que a aquecerem-lhe os pés nas noites geladas das cercanias de Mirandela. E quem ousasse meter-se com ela recebia logo um generoso directo nos queixos que levava até os mais obstinados a cuspirem dois ou três dentes das bocas sebentas. Bocas que não mais se abriam para a importunar. Morreu já com uma boa idade e diz quem a viu no leito de morte que desceu à terra de punhos fechados já precavida para o que desse e viesse quando entrasse às portas do céu. Ou do inferno, que a Esmeralda não era de finezas e aceitava de bom grado e a troco de umas boas coças o que o destino lhe reservava.


segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Liberdade de expressão



Cinema Choque


O melhor do cinema europeu sempre esteve, e estará, na forma como intervém na sociedade sem no entanto, no meu entender, poder ser redutora e objectivamente apelidado de um cinema de causas. Não raras são as vezes em que um cinema com estes sintomas de subversão da realidade e dramatização quase caricatural dos factos no propósito de deixar aos outros margem para escolha de uma verdade, se torna de tal modo exigente que o que julgamos ver está muito longe daquilo que nos é dado ver.

Em «O Juiz e o Assassino» (1976) um desaire amoroso vai fazer de um antigo sargento de infantaria um ser perdido, de mentalidade simplória, que vagabundeia entre aldeias violando pastores e pastoras. Será julgado e condenado e o próprio Juiz que lhe dita a sentença irá sodomizar a sua companheira. Claro que o realizador francês Bernand Tavernier seguiu de perto um caso verídico ocorrido nos finais do Séc. XIX. Mas executa de tal forma uma manipulação de dados à sua maneira que é notório o seu menor interesse nos factos em si em detrimento da matéria que gerará a discussão. E mesmo que esta matéria choque os espíritos mais sensíveis é imperioso que os pensadores das imagens continuem a executar o seu trabalho

domingo, 8 de Novembro de 2009

O sorriso como o Sol

[A actriz Rachel Weisz]




«O seu sorriso é o Sol que ilumina os dias de homens arruinados como eu.»


The Curator (Robbie Coltrane) para Penelope (Rachel Weisz), In The Brothers Bloom, o filme, de Rian Johnson

Filme: Os Irmãos Bloom





O admirável sonho dos Bloom



Neste mundo admirável mas por vezes tão esquivo e difícil, o maior privilégio a que alguém poderá aceder será o de viver a sua vida consoante a sonhou. E é precisamente desse sonho que nos fala o realizador Rian Johnson no filme que conta a história dos Bloom, dois irmãos órfãos que desde cedo tiveram que fazer pela vida. Johnson que em 2005 surpreendeu no Festival de Cinema de Sundance com «Brick». Bloom (Adrien Brody) é o mais sensível dos dois irmãos e aquele que verdadeiramente protagoniza as histórias escritas por Stephen (Mark Ruffalo), um escritor romântico feito argumentista de contos do vigário para os quais se socorre da inspiração de clássicos como Fiodor Dostoievski.

Apesar disso, a linha ténue entre realidade e ficção não é tão delicada assim e exerce sobre quem a segue uma pressão que pode tornar-se psicologicamente insustentável. É o que acontece a Bloom (Brody) que ensaia várias tentativas para fugir do mundo de fantasia e vigarice criado pelo irmão. Os dois decidem então executar um último golpe e para o fazer escolhem como vítima Penelope (a belíssima Rachel Weisz), uma herdeira solitária e tímida cujo maior hobby consiste em espatifar carros de alta cilindrada. Penelope é uma mulher excêntrica mas incrivelmente sedutora. Vem-se com o som das trovoadas, afoga-se em milhões mas sonha tornar-se contrabandista para ganhar tostões, e, claro, deste modo corre o grande risco de estragar os planos de Stephen (Ruffalo). Isto porque o sensível Bloom (Brody) não deixará de se apaixonar não resistindo ao poder de sedução de um exemplar perfeito e soberbo da bela casta feminina. Pelo meio dos três, os dois vigaristas e a potencial vítima, passeia-se a assistente japonesa dos irmãos Bloom. Ela que dá pelo nome de Bang Bang (Rinko Kikuchi), fala pouco (embora cante nos tradicionais bares de Karaoke de Tóquio) e é especialista em explosões.

O filme é divertido e as falas são de um modo geral inteligentes e de cariz profundamente psicológico. No entanto, o que mais se destaca deste projecto de Rian Johnson é a sua elevada ambição. Se não, vejamos: imaginemos que a todos nos é dada a capacidade de escrevermos o nosso próprio decurso de vida. Que pode haver de mais satisfatório? E se a dada altura esse sonho se desvanece por se tornar de impossível concretização nos for dada a possibilidade – triste mas extraordinariamente romântica – de tudo acabar, isto é, tal como o soldado no campo de batalha morrermos numa das nossas histórias? Ainda para mais sabendo que deixamos um importante legado: o de escrever para alguém que muito amamos um percurso final de vida pleno de felicidade. Poderá haver maior ambição? Creio que não.

Em resumo, apesar de algum desequilíbrio que se percebe, já que o filme não se aguenta por inteiro na dimensão enorme dos objectivos do seu realizador, o saldo final é claramente positivo. Sobretudo quando a história vem acondicionada num embrulho que transluz cinefilia por cada bocadinho da matéria com que foi composto. E se outra razão não houvesse para gostarmos deste filme, a sua capacidade de nos provar que as nossas vidas podem resultar muito mais daquilo que pensarmos para elas que o que na realidade acontece acaba por se tornar num motivo mais que suficiente para conquistar a nossa simpatia. Para além disso, em «The Brothers Bloom», no seu título original, Mark Ruffalo volta a ser o actor que tanto nos prometeu em «Podes Contar Comigo»(2000) e se Adrien Brody está uns furos abaixo daquilo que já nos ofereceu no passado, Rachel Weisz não sabe representar mal. E o seu sorriso, a sua beleza dócil, transporta-nos invariavelmente para a saudade daquele sorriso que nos faz, fez ou ainda fará sonhar. A caneta e o papel estão aí, a história a escrever está no âmago de cada um de nós.


«Os Irmãos Bloom», de Rian Johnson, com Mark Ruffalo, Adrien Brody, Rachel Weisz e Rinko Kikuchi



Um amor maior que a vida

[Cartas de uma Freira Portuguesa - Milo Manara, via E Deus Criou a Mulher]



«Os meus olhos é que perderam nos teus a única luz que os animava.»



Soror Mariana Alcoforado




Não raras são as vezes em que as grandes paixões permanecem eternas, afundadas na tristeza pela privação do outro, serenadas pelo lento passar do tempo que leva à triste resignação da perda. Soror Mariana Alcoforado, nascida e falecida em Beja nos anos de 1640 e 1723, foi uma dessas infelizes protagonistas de um amor maior que a vida. Apaixonada pelo fidalgo francês Noël Bouton (1636 – 1715), na altura em Portugal ao serviço da Cavalaria Francesa no reinado de Luís XIV, por essa paixão ardente a freira portuguesa quebrou o voto de castidade e propôs-se acompanhar o oficial até ao seu país de origem, não encontrando no entanto reciprocidade nesse desejo por parte do seu amado.

Famosa por escrever 7 fabulosas cartas que deram origem a livros e que pela sua beleza estética e fabulosa componente literária inspiraram poetas, escritores, pintores e outros artistas, decorreu em tempos no Real Mosteiro da Nossa Senhora da Conceição, em Beja, uma exposição que homenageia a religiosa portuguesa, que foi escrivã e vigária do templo, com a reprodução de litografias de Henri Matisse e de documentos originais que retratam a sua muito inflamada paixão que em tempo curto descambaria em saudade e dor. Deixo aqui ficar, com este texto, a minha singela homenagem a uma mulher que morreu não deixando que o seu amor morresse em si.





[reposição com nova ilustração]




sábado, 7 de Novembro de 2009

O homem que não sabia viver sem o amor de uma mulher



João Ferro


O João Ferro morreu vai fazer ainda este Novembro 3 anos. Ainda não era velho, pouco mais de cinquenta anos cumpridos, quando se foi deste mundo. Conheci-o por acaso, noite longa de Inverno, noite fria cá fora, lá dentro eu e alguns amigos mais duas ou três bebidas para aquecer a alma e o corpo. Lá dentro do bar nas docas de Lisboa. O João Ferro era o João Ferro. Isto é, como o João Ferro só mesmo o João Ferro, não dava para existirem dois iguais. Falava noites a fio e nós – eu e os outros –, mais jovens que ele, ouvíamo-lo com redobrada atenção.

Calcorreara o mundo.

Fixara-se durante alguns anos no calor abafado de África, na humidade quente das mulheres africanas, dizia sem se cansar de o repetir. Tivera seis mulheres, todas lindas, afiançava com severidade a evitar as dúvidas. E oito filhos. De cinco das seis mulheres. Todas elas muito mais jovens que ele, 13 anos de diferença a última. Ele, João Ferro, filho de um duro Tenente da Força Aérea, jurava nunca ter vivido sem amar. Que amar lhe era tão precioso como o ar que respirava. E não, nunca fizera amor com uma mulher sem sentir uma cumplicidade especial, sem haver forte envolvimento emocional entre ambos. Respeitava as prostitutas mas nunca recorrera a nenhuma.

Por que não, João?, tu que és doido por mulheres, perguntavamos-lhe.

Porque as amava, explicava muito simplesmente. Às mulheres. Franzia o sobrolho, batia com o punho a fazer saltar os copos meio bebidos no balcão do bar e apregoava zangado que o amor não se paga. É uma partilha, defendia.

Partilha de quê, João?

Partilha de afectos, de cumplicidades, de desejos, de paixão. Olha lá, João, essa frase leste-a por aí, brincavam os outros. Mas o João Ferro não era homem de responder a provocações. Quando se deitava a descrever a beleza de uma qualquer mulher que amara, quase que lhe rebentavam de emoção as lágrimas pelo rosto abaixo. Aquela pele macia, suave, as pernas lindas, bem torneadas, os seios rijos, sedutores, a barriga lisa – oh, a barriga! -, os lábios ardentes, aquele mundo de devaneio a abrir-se para um homem! E partíamos.

Partiam ele e ela.

Partiam numa viagem louca, ofegante, transpirada, de chegada em gemida euforia. No fim, o gesto sereno de carinho, as mãos entrelaçadas na união dos corpos ainda soluçantes. Era um poeta, o João Ferro. Depois, meio bebido, meio cansado mas feliz, cabelo bem puxado para trás em gel fornecido pelo seu barbeiro de sempre em Cascais, ar aristocrático, lá seguia no seu Jaguar com 22 anos, matrícula espanhola. De Madrid. Até que um dia, atraiçoado pelo coração que tanta felicidade lhe dera, seguiu viagem num caixão castanho brilhante para o cemitério dos Prazeres. Sim, que o João Ferro não admitia outro cemitério que não aquele para o descanso final.

Dos Prazeres.


sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Desafio: 10 cartões vermelhos






Numa pesquisa um pouco ao acaso no Google, descobri que o Carlos Barbosa de Oliveira, do blogue Crónicas do Rochedo, me lançou um desafio interessante: o de enunciar dez pessoas ou coisas aos quais gostaria de mostrar o cartão vermelho. Como mais vale tarde que nunca, e agradecendo a referência do Carlos, vou então enumerar os meus dez cartões vermelhos. Como já muitos o fizeram, deixo de lado preocupações mais ou menos universais como a fome no mundo, as guerras, o terrorismo e afins.


Sem ordem pré-estabelecida, aqui vão então as minhas ordens de expulsão:


- Para a sensação de impunidade que se vive na sociedade portuguesa. Os tribunais não funcionam e a opinião pública é muito célere a condenar sem grandes preocupações sobre as consequências que podem advir para quem esteja inocente. Também é comum testemunharmos levantar-se a maior suspeição apenas com base no diz-que-disse sobre pessoas que desde sempre tivemos como exemplares e impolutas.

- Cartão vermelho para o pouco civismo que ainda grassa na sociedade portuguesa. Pese todo o avanço tecnológico, de infra-estruturas e outros elementos estruturantes e civilizacionais que nos têm aproximado dos demais povos europeus, nomeadamente os que se encontram no norte da Europa, o facto é que em termos educacionais e de princípios básicos para se viver bem em sociedade estamos ainda muito aquém.

- A todas as pessoas que de uma forma ou outra se usam de amigos ou conhecidos para atingir determinados fins ou mesmo aquelas que pelos seus actos dão a sensação que a amizade, o amor, o respeito mútuo ou qualquer outro tipo de relacionamento que exista é algo de descartável. Ou seja, usam e deitam fora. E eu acredito que a sociedade tem descambado um pouco para este estado de coisas e a internet não está isenta de culpas já que as ligações vão acontecendo sem que exista uma verdadeira base de sustentação para sobreviverem. Nem mesmo para que se perceba como devem verdadeiramente processar-se as relações entre os seres humanos.

- A tendência que existe no nosso país para se formarem grupos mais ou menos fechados onde está tacitamente vedada a entrada/participação de quem não reúna um certo número de características quase sempre ligadas a um certo e sempre condenável pretensiosismo. Já que estamos no mundo do ciberespaço convido-vos a uma vista de olhos pelas barras laterais dos blogues. Provavelmente, pode até começar-se pela minha escolha de blogues a visitar diariamente.

- Para aqueles que não percebem que uma crítica (de cinema, de teatro, de livros..) é apenas a opinião de alguém e não uma verdade absoluta partindo de imediato para o ataque pessoal ao seu autor apenas porque discordamos do seu conteúdo.

- Irritam-me a falsa humildade, o uso e abuso da ironia, a hipocrisia e o sarcasmo. Preferirei sempre debater argumentos com alguém que se assuma verdadeiramente, por muito que me desagrade ou não concorde com esta ou aquela postura, em detrimento dos que se protegem sob uma capa de falsidade em nome de objectivos um tanto ou quanto obscuros.

- Vivemos na era dos heróis de pés de barro. A facilidade com que hoje em dia nascem heróis é assustadora. Pergunto-me por onde andam os cientistas, os escritores, poetas, os homens que com a sua acção colaboram para a melhoria de vida de outrem… Quem os cala, quem não lhes dá voz?

- Vermelho directo para as forças de segurança que supostamente deveriam proteger o cidadão e não intimidá-lo, atrofiá-lo. Nas estradas não existe prevenção mas sim caça à multa, nas ruas ninguém se sente seguro e sempre que um agente da autoridade se nos dirige por este ou aquele motivo é invariável o seu tom despropositado como se o cidadão comum fosse o criminoso e não a razão de ser da existência de forças de polícia. E por aí fora.

- Vermelho também para a sociedade de classes e disparidade de direitos em que estamos cada vez mais a tornar-nos. Entre muitos outros exemplos, os governantes possuem um estatuto que lhes permite voar nas auto-estradas acompanhados de fortes escoltas policiais, nas grandes empresas os conselhos de administração prevêem prémios milionários para si enquanto recusam aumentos miseráveis para os funcionários de escalões mais baixos, nos hospitais, na educação, as diferenças de poder económico ditam cada vez mais a lei sobre a forma como vai decorrer o acesso à saúde e à educação...

- Muitos cartões vermelhos para quem decide a programação do chamado horário nobre nas televisões, para a quase inexistência de salas de cinema sem pipocas, para a falta de desportivismo que continua a verificar-se entre as diversas partes intervenientes no nosso desporto profissional, nomeadamente no futebol, para os cafés e pastelarias transformados em restaurantes sem categoria nem qualidade, para os serviços de atendimento telefónico onde aguardamos longos minutos para sermos atendidos enquanto nos passeiam de guichet virtual para guichet virtual…


E, por fim, já não contabilizado, um cartão vermelho para mim mesmo por cada vez que, ainda que involuntariamente, abdique de convicções próprias aqui enunciadas por razões que, passe o lugar-comum, a minha própria razão desconhece.


quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Deus e o Diabo na terra do Sol

[Fotografia conceptual - Sandra Sue]




Todos os dias, chovesse ou fizesse Sol, via aquele homem fechar o enorme e pesado portão verde atrás de si e descer penosamente os degraus que davam para um passeio ladrilhado de hexágonos castanhos. Um passeio ainda um pouco longo que pisava indiferente desde a casa isolada que habitava até desaparecer no interior do pequeno café situado na rua principal da aldeia. Eu não teria mais de uns oito anos, mas, por vezes, acompanhado do meu avô que ali se deslocava para comprar tabaco e dar dois dedos de conversa ao gordo e farfalhudo dono do botequim, via-o chegar ao entardecer. Como sempre, num ritual grave e ao mesmo tempo ausente, não pronunciava mais que as palavras capazes de darem a entender o que pretendia – normalmente dois ou três cálices de aguardente ou outra bebida ainda mais forte esvaziados de um sorvo cada um deles. Depois, remexia as mãos nos bolsos das calças em busca de moedas para pagar o consumo e abalava em silêncio pelo caminho que o trouxera.


Aquele olhar magoado, o voluntário isolamento a que se votava do mundo que o rodeava, os gestos repetitivos, o invariável fato escuro limpo mas amarrotado, intrigavam-me. Não teria mais de trinta e cinco anos de idade, alto e magro, cabelo curto que se percebia não ter sido cortado por um profissional do ofício. Na aldeia corriam os mais díspares e disparatados rumores sobre aquele homem enigmático e distante. Vivia com a mãe, senhora austera, de posses, mas pouco quista entre os aldeões. Chegara um, dois anos atrás não se sabia ao certo de que proveniência. Dizia-se que enlouquecera por ter perdido uma fortuna ao jogo, que a loucura lhe viera de anos passados numa prisão de Lisboa a cumprir pena por ter assassinado alguém, que estivera em África e fora um mau líder culpado pela morte de um pelotão inteiro de soldados sob o seu comando. Sobre aquele pobre homem recaíam as mais odiosas suspeitas. Embora na altura nunca tivesse conseguido perceber o que acontecera, apesar de garoto acreditava piamente que o seu crime se resumia apenas ao retraimento relativamente aos restantes, à sua inexplicada desolação.


Certo dia, já de si enegrecido e chuvoso, foi quando a noite já estendia o seu manto negro sobre a povoação que vi um grupo de miúdos a fazer uso da perversidade inconsciente que lhes é própria. Caíam injúrias tremendas sobre aquele que para todos não passava de um estranho e bizarro homem. E para lá das infâmias gritadas, fora autenticamente fuzilado com lama e pedras que o deixaram ligeiramente ferido e enlameado. Depois, fugiram entre os canaviais até que a algazarra que faziam se tornou imperceptível e longínqua. Num estado deplorável, o homem continuou o seu caminho sem fazer um único gesto para retirar das roupas a terra molhada que fora lançada sobre si. Segui-o instintivamente. Quando abriu o pesado portão verde, uma luz tristonha acendeu-se e ao fundo do jardim da casa surgiu uma senhora já com alguma idade. Como a não conhecia não a pude identificar, mas era certamente a mãe. Desde o meu posto de observação, a terra debaixo dos meus pés parecia tremer, o coração pulava no meu peito. Não muito longe, um bando de corvos voava na direcção oposta à minha numa revoada silenciosa. A senhora, ao ver o filho naquele estado, chorou. O filho ao ver a mãe chorar sorriu com ternura e abraçou-a. Não consegui ter certezas, mas pareceu-me que também as lágrimas lhe molhavam o sorriso triste. Depois refugiaram-se ambos no interior da casa.


Soube anos mais tarde que se mudaram para uma aldeia do norte, junto a Vila Real. Soube também que, naqueles anos em que a sua diferença suscitou ódios e incompreensão, recuperava psicologicamente de um abalo terrível: a sua mulher, a mulher que amava, morrera de parto e levara consigo aquele que seria o primeiro filho de ambos. Foi também por esta altura que comecei a perceber que se pode sentir náusea pelas atitudes alheias, que tudo serve para o ajuste de contas das pequenas querelas de aldeia, que o cinismo e a irresponsabilidade humanos rapidamente se transformam em crueldade, que o maior inimigo do homem é e será sempre a sua própria ignorância. E que é possível continuarmos a caminhar no mundo dos vivos mesmo depois de morrermos de amor.


quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Referências de Sempre

[Leon Bakst]




O meu Avô Anastácio, com o seu impecável cabelo invariavelmente curto e penteado a fazer lembrar um oficial da marinha inglesa, sentava-me no seu colo era eu garoto e dizia-me qualquer coisa ininteligível para mim à altura como:

– As referências, as referências, menino, nunca as percas!

E depois dava mais uma baforada nos cigarros sem filtro que adorava fumar e ele mesmo fazia, virava o olhar para o horizonte sem que se lhe percebesse qualquer referência física onde me pudesse orientar, e ficava assim durante largos minutos sem sequer se lembrar da minha leve existência sobre as suas pernas ossudas.

Vem isto a propósito do que me aconteceu, a mim e a um amigo de escola primária, já lá vão muitos anos. Eu conto, fugindo aos sempre maçudos detalhes. No regresso de uma pescaria à cana no Rio Tejo, noite escura já alongada sobre os campos em redor, eu e o J. optámos pelo caminho mais curto de regresso a nossas casas e que se fazia ao longo da linha da Beira-baixa. Esta era, à partida, uma decisão cómoda. Mas não, era uma decisão louvável e mesmo corajosa. É que uns bons 500 metros para sul, que era a nossa direcção de volta, situava-se um dos cemitérios da região. Amedrontados mas de peito cheio, que dos fracos não reza a história, lá caminhámos contando toros de madeira linha-férrea fora. Ia eu para aí nos 87 madeiros em que naqueles tempos assentavam os carris, quando avistei o vulto. Era um vulto negro que mal se distinguia na noite e, coisa difícil para um humano vulgar, suportava um pé no carril da esquerda da linha e outro pé no carril da direita. O cenário piorava porque ali mesmo ao lado viam-se bem brancas no negrume da noite as paredes do local onde se multiplicavam os sepulcros. O tal cemitério.

Foi uma situação aflitiva a que vivemos. O J. olhava para mim aterrado, eu olhava para ele não menos atemorizado e… nada. Não sabíamos qual a melhor atitude a tomar. Ficar ali, tentar o recuo perante o assustador inimigo!? Finalmente, e sem movermos um músculo da boca para pronunciarmos o que quer que fosse, corremos na direcção de uma casa abastada que sabíamos existir por ali. Neste entretanto, a coisa foi-se tal como chegou. Sem avisar, sem se perceber de onde veio e muito menos para onde voltou.

Volto eu agora às referências do meu avô Anastácio, ele que foi uma referência para mim. Morreu anos atrás e nunca cheguei a contar-lhe este incidente. Por um lado com receio de não ser levado a sério mas também porque usara emprestada sem seu conhecimento a cana de pesca que ele mais gostava. Hoje pergunto-me como teria ele agido perante uma situação como a descrita? Apetece-me acreditar que se dirigiria até junto do vulto não identificado, se apresentaria educadamente à figura e, sem pejo algum, oferecer-se-ia para lhe fazer um dos seus cigarros antes de se sentarem os dois nos carris a fumar sossegadamente e a comentar como as águas do rio, de tão calmas, andavam bem más para a pesca à vara solta. Como afinal ele tanto apreciava.
[Reposição]

Quem disse que não há coincidências?




[Francisco Moita Flores]



Não importa se grande se não tão grande assim, a verdade é que Francisco Moita Flores é uma das figuras deste início de século. Antigo inspector da almofada da justiça conhecida como PJ, escritor incansável de livros e (tele)novelas, autarca de eleição na escalabitana capital do Ribatejo, não é por ter há tempos achado que a justiça deve perceber e diferenciar quais são os corruptos bons e os corruptos maus que lhe vamos retirar o mérito de quem procura construir meritoriamente a vida dando aos outros algo de si e não se fica por passear-se simplesmente por este nosso What a wonderful World. No entanto, tal como refere um conhecido meu, há uma passagem na minha vida ligada a Moita Flores, a qual este desconhece totalmente, que me fez acreditar que as coincidências existem e cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém quando falamos dos outros.

Viajando em trabalho na TAP de Bruxelas para Lisboa, eu e um colega meu da altura folheávamos um dos jornais que simpaticamente as hospedeiras de bordo nos oferecem para ajudar a queimar o tempo e algumas pestanas. Estávamos na época do florescimento de Moita Flores como escriba de livros e uma das notícias dava precisamente conta de um evento ligado ao lançamento de uma das suas primeiras obras. Recordo-me de ter feito um comentário respeitoso, sim, mas, confesso, não muito lisonjeiro para o escritor Moita Flores que despertou um sorriso de concordância no João A. Sentados lado a lado numa daquelas fileiras de três lugares próprias dos A321 da Airbus, acompanhava-nos na circunstância um tipo ainda jovem, meio forte a caminho do gordo e barba grande. Ao ouvir as minhas palavras, esqueceu a revista em que parecia embrenhado e virando-se para mim alertou-me em tom pouco amistoso: cuidado com o que diz, esse senhor é meu pai. Juro que por momentos maldisse a sorte e não me sobraram palavras para justificar a liberdade de expressão que me era devida. Ainda para mais ao emitir uma opinião de cariz cultural, já que, afinal, referira-me ao escritor e não ao homem.

Resumindo, conversa daqui, conversa dali, acabámos a falar das mais diversas vertentes do panorama cultural português, e, chegados a Lisboa, despedimo-nos amavelmente. Ainda assim, juro que cheguei a arregaçar as mangas e desapertar o nó da gravata não fosse ter que esgrimir fisicamente argumentos sobre as qualidades literárias de um autor.



terça-feira, 3 de Novembro de 2009

A juventude perdida algures entre o norte e o sul

[Imagem retirada da Internet; não por acaso]




O meu carro não estranha, percorre veloz o alcatrão da A1. Direcção norte, paro na área de serviço de Pombal, entro no restaurante. Assim que me encontro no interior do estabelecimento vejo uma senhora a olhar fixamente para mim. Vestes austeras, rosto sofrido, cabelos brancos bem cuidados, olhos cansados a lembrarem uma juventude perdida. Tem certamente mais de oitenta anos de idade, dirige-se para o local onde me encontro. E fala-me. Pedro, Pedro, por onde tens andado, meu filho? E lança-me o braço apertando com a sua a minha mão. Não, é confusão sua, eu não sou o Pedro, respondo-lhe. Ela retrai-se, dá um passo atrás, contempla-me dos pés à cabeça. Não és o Pedro?, balbucia ainda mais entristecida. Não, tenho pena pelo seu engano, não sou o Pedro. Tento ser carinhoso, ela insiste. Não és o Pedro? E sabes onde o Pedro está? Não sei dele. Não tenho tempo de lhe responder, uma outra senhora, talvez uma irmã, talvez uma simples amiga, pede-me desculpa e sugere à senhora que partam. Ainda consigo perceber que chora. Apeteceu-me chorar com ela.


segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Mulheres. O que mais nos atrai nelas.


[A actriz Scarlett Johansson; ela que tem tudo e nos prende a si por quase nada]





Pode ser um olhar, pode ser um sorriso, pode ser tudo, pode ser quase nada



Hoje dei comigo a tentar perceber o que me atrai numa mulher. Gosto de mulheres bonitas, claro que gosto. E que tenham uma educação esmerada. Serem inteligentes também ajuda, obviamente. Ah, e se reunirem uma mescla de sofisticação e simplicidade nessa ténue fronteira entre ter classe e fugir à enfatuada afectação, tanto melhor. Mas, pergunto-me, num patamar alto de exigência não é isso que em geral os homens gostam nas mulheres? Então onde está a minha diferença, aquele detalhe que prende a individualidade dos sentidos que são os meus?


Claro que omito voluntariamente pormenores como pernas, seios, traseiro e barriguinha lisa. Tudo isto segue no pacote descrito anteriormente como ‘mulheres bonitas’ e, lá está, são características universalmente requisitadas pelos homens numa mulher. Mas não, pode ser um simples gesto no gesto que é dela, uma forma de sorrir num sorriso tímido ou rasgado, os olhos perdidos num olhar indefinido no horizonte, um jeito no jeito de andar, uma mão que afasta do rosto o cabelo que no rosto perturba, o atravessar distraído de uma passadeira sem semáforo verde no branco dos rectângulos em asfalto negro, a contemplação de um livro a ser lido numa mesa de café entre um café quente e um livro que se lê, a distinção de quem a tem e se distingue por não necessitar de a procurar, a complexidade de um semblante nostálgico, pensativo, nostálgico, pensativo…


Concluo, pode ser tudo e também pode ser quase nada. Porque cada mulher é um mundo novo e desigual que se tem vontade de descobrir. Ou não.




[reposição]

Adeus, António Sérgio. Obrigado.






Nos meus tempos de crítico de cinema em ‘part-time’, era comum nos visionamentos de imprensa dos grandes filmes surgirem vultos maiores do jornalismo português quer escrito, quer da rádio ou televisão e que normalmente não apareciam. O António Sérgio aparecia poucas vezes e imediatamente se percebia a pessoa que era e se confundia com o admirável profissional da rádio. De roupas em desalinho, cabelo e barba descuidados, despreocupado consigo e interessado naquilo que realmente é importante, humilde, altruísta, era assim o António. Antes do início da sessão ficava a falar com os mais antigos, como o João Lopes, do DN, ou o Manuel Cintra Ferreira, do Expresso. Graças a ser um habitué das sessões de cinema para jornalistas, também eu por vezes me imiscuía na conversa. E apesar do fato completo, da gravata a rigor, da aparente elegância de vestir a que me obrigava a minha actividade profissional principal, era curioso verificar que assim que o António Sérgio falava tudo mudava. A forma como colocava a voz, a serenidade e tonalidade com que o fazia e o total desprendimento intelectual apesar da erudição das suas convicções, imediatamente faziam de mim o desajeitado e do António Sérgio o homem elegante que prendia a atenção dos seus pares.

O António Sérgio vai hoje a enterrar. Obrigado, António.





sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Identidade, Dois




Ainda a propósito desta problemática envolvendo a Identidade e o Politicamente Correcto, sobre o seu livro «O Estrangeiro», Albert Camus escreveu um dia que na nossa sociedade um homem que não chore no enterro da sua mãe corre o risco de acabar condenado’. Camus esclarece depois que o que quis dizer é que 'alguém que não segue as regras do jogo é um estrangeiro na sua própria sociedade e acaba condenado por isso'. E conclui afirmando que 'O Estrangeiro é a história de um homem que, sem nenhuma pretensão heróica, aceita morrer pela verdade'. Quisera cada um de nós ter esta pretensão aparentemente simples e levá-la a cabo vida fora.

Identidade, Um

[O escritor Philip Roth]




Leio algures num sítio da blogosfera uma citação de alguém que diz que jamais devemos justificar-nos; isto porque os nossos inimigos recusam-se a acreditar-nos e os verdadeiros amigos não precisam (de justificações)’. Este pensamento leva-me até um livro maior de Philip Roth, o já anteriormente aqui citado «A Mancha Humana». Pela obra vagueiam duas personagens a reinventarem-se por força da rejeição da sociedade em que estão inseridos. Uma, Coleman Silk, procura libertar-se do estigma racial engendrando para si uma nova identidade; e outra, Fauna, procura na relação amorosa com Silk uma nova oportunidade de redenção e esperança. Não seria necessária a leitura do livro para perceber que algo do género possui um risco elevado de insucesso e de trágico. Daqui se conclui que a única forma de lutar contra a hipocrisia residirá na busca por fazer prevalecer a verdade do que nos individualiza como seres humanos. Mas não sejamos ingénuos, seja qual for a opção que se tome haverá sempre um preço a pagar.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Câmara Lenta




[era tarde já tarde na noite que engrandecia; transpirado dissera-te adeus, desejei-te um bom filme,disse-te até depois]



Sentei-me numa mesa, pedi um café. Ao ver-me de olhar absorto no olhar da mulher apoiada num cigarro aceso na mesa defronte da minha, o empregado informou-me da permissão de fumar naquela ala do estabelecimento. Pode fumar se o entender, murmurou. Olhei-o mas não o vi, senti que o olhar dela me descongelava no corpo o gelado da noite fria lá fora.



[memórias de mim, de outras noites, dos lençóis, os lençóis brancos, os corpos, os corpos entrelaçados um no outro, o meu calor a somar ao calor dela, a força de um abraço, as memórias, uma história por contar; uma noite ela chorou. Chorou sobre a noite escura e, de corpo trémulo, protegeu-se nos meus braços, na força do meu abraço. Como no cinema fizemos com que a acção decorresse em ritmo lento, lento, tão lento, tão lento que parámos de corpos colados um no outro]



Voltei a deter os meus nos olhos daquela mulher defronte de mim. Eu defronte dela. Socorrera-se de um novo cigarro e olhava na minha direcção. Na minha direcção, não para mim, muito para lá de mim, como se eu não existisse, como se eu não estivesse ali, como se o mundo se circunscrevesse a si e às recordações que a faziam existir para lá do seu corpo sentado numa cadeira junto à mesa de um bar. De repente percebi-lhe uma lágrima a rolar pelo rosto, uma lágrima como se tratasse de uma gota de orvalho que se desprende de uma flor e se desfaz violentamente na terra húmida. Sim, aquela mulher tinha uma história de vida por contar, todos temos histórias de vida por contar. Histórias. Olhei a chávena de café que o empregado me servira. A minha mão direita pegou-lhe e trouxe-a até mim, encostei o seu rebordo nos meus lábios e senti o líquido quente, aconchegante, reconfortante. Talvez como os lábios daquela mulher…



[ …talvez como os teus lábios]





terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Filme: O Delator




Banhas, mentiras e cassetes manhosas



Depois de um início de carreira auspicioso com «Sexo, Mentiras e Vídeo», e, pelo meio, com outros sucessos na algibeira como «Traffic», «Erin Brockovich» e a saga «Oceans Eleven, Twelve e Thirteen» o realizador Steven Soderbergh continua a sua caminhada por atalhos e outros caminhos difíceis, locais esses onde podemos encontrar «The Informant», título actualmente em cartaz. E agora que está avisado, segure-se o espectador mais incauto ao banco onde acompanha o realizador nessa viagem atribulada já que compra um bilhete que supostamente o levará até aos anos 90, mas, valha a verdade, mais parece aportar nos anos 70. Ou seja, e já ao jeito de resumo prévio, a comédia dramática acaba mesmo por se transformar numa paródia que só não cai num gigantesco bocejo porque Matt Damon, o gordo e balofo Matt Damon, imagine-se, não deixa que o filme vá por aí.

A história tem base verídica e relata as aventuras e desventuras de um esquizofrénico ambicioso de nome Mark Whitacre (Damon) que não satisfeito com o seu lugar relevante de executivo numa empresa a auferir um vencimento de 350 000 dólares ano antes de impostos, resolve primeiro acusar os seus patrões de práticas ilícitas tendo-se tornado bufo do FBI para a obtenção de provas do crime, e, depois, acaba por culpar o próprio FBI de sevícias sobre a sua pessoa impoluta. Enquanto isto, a realidade dos factos que serve de inspiração ao filme é retratada por Soderbergh de um modo tão cáustico que é o próprio espectador que no final se sente tão mais estranho quanto a esquisitice daquilo a que assiste.

Posto isto, não será difícil perceber que vemos desfilar no ecrã espiões de trazer por casa, agentes da lei com formatura obtida por correspondência e empresários corruptos que, entre nós, nem para dar ainda mais colorido ao apito dourado nos serviam. Temos por cá bem melhor nesta matéria, suspeito. O filme salva-se unicamente pela prestação enérgica de um Matt Damon que engordou duas ou três arrobas para fazer este filme não perdendo com isso energia na língua, já que fala pelos cotovelos e debita mentiras ao ritmo do caudal de saída de água das condutas de Castelo Bode, uma barragem situada algures no Zêzere a poucos quilómetros de Constância.

Dir-se-á que Steven Soderbergh é um génio e que este filme o comprova. Sendo assim, eu assumo não ter estado à altura da sua genialidade já que vi o filme com bastante interesse inicial, mas entretanto este desvaneceu-se em mim e, por esta altura, já o esqueci completamente. Uma só nota final para Matt Damon que levou dois meses a recuperar a sua forma natural. Não tarda nada estamos a ouvir na rádio o anúncio tipo de uma dessas revistas do social a exortar o bom do cidadão a que «saiba como Matt Damon perdeu duas ou três séries de quilos em apenas dois meses; saiba tudo na Caras.» Ou será na VIP?



«O Delator», de Steven Soderbergh, com Matt Damon, outros



domingo, 25 de Outubro de 2009

Siddhartha, 1

[Siddhartha, de Hermann Hesse]






Os domingos sempre tiveram para mim um significado especial. É o único dia da semana em que posso sair à rua e esta se encontra despojada do bulício ruidoso e fumarento dos automóveis e das gentes em passo de corrida cruzando-se indiferentes ao que as rodeia. Neste dia da semana, o silêncio torna-se quase poético e a azáfama inexistente permite-me que saia de casa logo pela manhã, me sente sossegado a tomar café numa esplanada enquanto folheio os três ou quatro jornais que compro no quiosque vizinho à minha pastelaria favorita.

Quem ler este texto vai com certeza questionar-se por que carga de água eu comparo o discurso imprudente, arrogante e anti-desportivo do presidente do meu clube, o Benfica, com uma obra fundamental da literatura de sempre, «Siddharta», de Hermann Hesse. Isto, porque é precisamente de «Siddhartha» e de Hesse que me socorro para recusar o populismo bacoco de um homem com evidentes méritos na recuperação de um clube a sair pelas suas mãos da agonia em que a irresponsabilidade e inaptidão de alguns o colocaram, mas, infelizmente, um homem sem um mínimo de preparação cívica, intelectual e cultural para o lugar que ocupa. Sobretudo quando se dirige aos adeptos, sobretudo quando desrespeita os adversários desportivos com chavões como o que hoje me indignou na imprensa escrita: «Ninguém nos pode parar». Assim, sem menos nem mais.

Sou a favor da grandeza de carácter. Da grandeza na hora de perder, mas sobretudo na grandeza na hora de ganhar, que é, reconheçamo-lo, uma tarefa bem mais complicada de conseguir. Daí atrever-me a aconselhar Luís Filipe Vieira a ler «Siddhartha», partindo do princípio que este tem não apenas a capacidade, que aceito que tenha, como, muito mais importante, a humildade de atender à mensagem presente na obra do alemão Hesse. E nem sequer me refiro à busca de plenitude espiritual que a personagem principal do livro empreende, mas, tão somente, à sua dimensão metafórica aplicada ao quotidiano do cidadão comum.



Siddhartha,2

[Hermann Hesse, Nobel da Literatura (1946) e Prémio Goethe, na Alemanha, no mesmo ano]





Para quem leu o livro, sabe que «Siddhartha» é a história de uma procura. De uma procura que alguém leva a cabo e onde o elemento mais importante não é o ponto de chegada mas sim o percurso realizado para lá chegar. Siddhartha é um jovem indiano bem-nascido mas totalmente insatisfeito com a vida que tem. Resolve então partir à aventura na tentativa de encontrar aquilo que o pode completar, embora, à partida, não lograsse perceber o que procurava. Nessa busca, de anos, experimentou de tudo. Entregou-se à luxúria, ao jogo, tornou-se asceta e interagiu com as mais variadas personagens conhecendo os múltiplos aspectos da vida.

Ou seja, um homem que tinha tudo percebeu que sem passar por privações, sem conhecer o desânimo ou o sabor amargo da derrota, sem ter a necessidade de se reinventar para ultrapassar obstáculos conhecendo a dor e o sofrimento, jamais conseguiria identificar a felicidade e lidar com ela caso existisse no seu todo. E este é, quanto a mim, um dos maiores problemas da nossa sociedade que se vêem reflectidos nas figuras mediáticas que se mostram tão pequeninas perante as questões existenciais que obrigatoriamente deveriam acompanhar-nos no dia-a-dia. Com isto quero apenas dizer que mais do que gritar que ninguém nos pode parar, eu preferiria que alguém responsável tivesse a lucidez de exortar a que nós, os adeptos, rejubilássemos com cada novo jogo, vivêssemos uma rivalidade saudável a cada nova jornada e que nos deixassem sorrir com a beleza do futebol não nos retirando o prazer que advém da ultrapassagem dos mais diversos obstáculos e, tal como na história de Siddhartha, o indiano, saborearmos o sabor amargo da derrota para melhor percebermos o doce sabor da felicidade caso a vitória aconteça. Caramba, será isto pedir muito?



sábado, 24 de Outubro de 2009

O evangelho segundo Freud




«Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa.»



Sigmund Freud


Mulher de sonho




Nos contos de fadas não há lugar para surpresas desagradáveis e tudo acontece ordenadamente até ao também harmonioso final. De certo modo, se a nossa vida decorresse como nas histórias de infância teríamos a felicidade garantida. Mas como a perfeição não existe, essa seria uma felicidade cozinhada em lume brando onde não há lugar para a ansiedade pelo tempo que se espera, para o desaire ou para a conquista, para o ardor, para a paixão. Assim sendo, deixemos as fadas no seu mundo e aceitemos as vibrações que a vida nos transmite mesmo que por vezes tenhamos que rebobinar as nossas emoções e obrigar-nos a que tudo volte ao início.

Não será surpreendente para quem quer que seja se aqui disser que gosto de escrever. A escrita permite que moldemos o mundo sob o nosso ponto de vista e dêmos à vida os contornos que muito bem nos aprouver. Neste âmbito, sempre tive uma ideia romântica da mulher e embora no decurso da vida sejamos assaltados por pensamentos parasitas e ensaiemos alguns passos de dança com corpos estranhos a esse ideal, o perfil dessa mulher – que não está vedado a pequenas variações – está criado, existe.

Imaginemos que estou na sua presença e a olho enquanto trocamos breves palavras. O seu rosto, de finos traços femininos bem definidos, deixa escapar uma áurea nostálgica que permite adivinhar a preferência por um sorriso franco que transmite um sentimento em detrimento de uma gargalhada forte que surge apenas como resultado de um reflexo. Estamos numa sala movimentada, muito iluminada, e a luz forte incide sobre si. Os seus olhos, castanhos, adquirem então um delicioso colorido de avelã. Tem os cabelos, também eles castanhos, apanhados, e fala num tom de voz suave que altera de quando em vez para se poder fazer compreender no meio do ruído dominante. Parece não ter ainda percebido que os olhos brilhantes, sim, os seus olhos castanhos brilhantes, exprimem para o mundo exterior as emoções que procura reter interiormente. Ou talvez perceba, já que procura escondê-los amiúde fugindo com o olhar até o deter em locais vagos e incertos. Tem um corpo lindo, perfeito, é uma mulher elegante. E sofisticada sem que procure trabalhar este pormenor. Mas não necessita fazê-lo, a sofisticação é-lhe inata e emprega-a com toda a naturalidade do mundo. Gosta de se manter em forma, vive na cidade grande longe do local onde nasceu, cresceu e se fez mulher. Na conversa que mantemos, diz-me – imaginemos – que adora um bom livro e é fã de cinema. De todas as características enunciadas, destacam-se a delicadeza e o carinho com que interage com os outros. Isto, embora seja directa mesmo que evite ferir a quem se dirige. Pese tudo o que se disse, tem dificuldade em expor mais de si do que aquilo que dá a perceber involuntariamente. Quando assim não é, quando se liberta, a espontaneidade com que o faz quase provoca que o mundo em seu redor lhe desabe sobre os braços.


Talvez esta mulher não exista, talvez exista apenas neste meu delírio criativo. Para existir na realidade, esta mulher linda, inteligente e culta teria que avaliar Denzel Washington e Kevin Spacey como os melhores actores da actualidade e ter em «Gato Preto, Gato Branco», de Emir Kusturyka, o seu filme favorito.




Parabéns



Distraído como tenho andado nos últimos dias, só hoje soube que o meu amigo António Serrano foi o escolhido por José Sócrates para Ministro da Agricultura. Paulatinamente, o António tem vindo a construir uma carreira competente e sólida na administração pública. E esta é uma distinção mais que merecida. Parabéns e felicidades.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

A complexa aurora do amor...





«Por que é que ela continuava a resistir a si mesma, perguntava-se. Que receava, quais seriam os seus medos? Intempestivamente despediu-se dela, que, delicadamente, quase carinhosamente, se aproximara de si, lhe falava e lhe sorria. Despediu-se como se não voltassem a ver-se mais afastando-se alguns metros do local onde se encontravam. És um idiota, pensou de si intimamente. Sabia bem que não era aquilo que desejava. Pareceu-lhe senti-la repentinamente entristecida, quis acreditar que também ela não queria aquele desfecho. Passou a aula sem conseguir aplicar-se ou prestar sequer atenção à professora. Embora não estivesse nos seus planos, assim que a aula acabou dirigiu-se à secretaria e inscreveu-se para a sessão de três horas do dia seguinte. Precisava revê-la, mostrar o seu arrependimento, pedir-lhe desculpa. Não tinha qualquer outro meio para o fazer. Ficou a torcer para que ela reservasse um lugar para si junto ao seu.»


In Contos Inacabados, de L. A.


quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Prémio Português Suave




Jornal i


[prémio atribuído por unanimidade e aclamação]

Um livro, um filme - Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal


[Esta noite, 1.30 da manhã, Canal Hollywood]



Para quem gosta de uma boa adaptação de um livro ao cinema, não pode deixar de ver «Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal», realizado em 1997 por Clint Eastwood. Para essa excelente transposição muito contribuem as fabulosas interpretações de Kevin Spacey e John Cusack, sendo que este último é um jornalista deslocado para a sulista Savannah a convite do excêntrico milionário Jim Williams (Spacey).

Inicialmente destacado para elaborar um trabalho no domínio do social, um crime vai no entanto fazer com que John Kelso (Cusack) entre na intimidade de uma cidade muito peculiar onde os vivos se movem na dependência dos mortos e de supostos poderes ocultos de personagens estranhas num mundo já de si pouco convencional. Esta envolvência enigmática a par do clima quente da região e da excelente pronúncia daquela zona do estado da Geórgia, sul dos EUA, que os actores e a realização exploram muito bem e muito a propósito, transmitem ao espectador as mais realistas fragrâncias de uma sociedade que se foi construindo alicerçada em valores muito próprios, alguns deles fora do comum.

Pelo filme passeia-se ainda Jude Law em início de carreira, enquanto que para Clint Eastwood esta foi uma das primeiras provas de fogo a que se propôs na tentativa de revelar (com enorme sucesso) o seu ecletismo como realizador de cinema. Para quem tenha lido o livro de John Berendt, fica ainda a certeza de observar o mesmo espírito criativo em dimensões narrativas diferentes: a literatura e o cinema. A não perder.


«Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal», livro de John Berendt, filme de Clint Eastwood


terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Viver o sonho





A propósito de um pequeno filme de inícios da década de sessenta


«La Jetée» é um filme francês datado de 1962, escrito e realizado por Chris Marker. Invoco-o para relembrar o estranho fascínio que o seu argumento sempre exerceu sobre mim. Talvez porque nele se juntem elementos que reputo de fundamentais da vida. Como o são a paixão, o sonho e, inevitavelmente, a morte.

Tudo se desenrola a partir de uma imagem de infância a atormentar a vida de um homem. Essa imagem prende-se com a visão de uma mulher de pé junto a uma enorme queda de água e, junto a si, a queda de um corpo. Tudo isto se passa alguns anos antes de mais uma guerra mundial que viria a destruir totalmente Paris. Anos depois, nos subterrâneos da cidade luz uma equipa de cientistas ensaia viagens no tempo e esse homem, graças à sua obsessão, é o escolhido para efectuar uma expedição ao passado. E é assim que se vê perante a jovem dos seus sonhos o que permite que a sua fixação se torne numa doce realidade. Mas ao correr para os braços da mulher, cai fulminado aos seus pés. Ou seja, o corpo que durante anos viu projectado cataratas abaixo era o seu, a imagem que o perseguia era a da sua própria morte.

Convém explicar o porquê do meu fascínio por este argumento aparentemente simples mas de interpretação bem mais complexa. Porque a imagem que atormentava aquele homem se tornara num sonho que urgia concretizar. Mas, como revelei atrás, essa concretização encerrava afinal um desfecho dramático. Um final que, ironicamente, valoriza ainda mais aqueles que nunca abandonam os seus sonhos, apesar de perceberem que podem estar a trilhar um caminho que os conduz não à felicidade procurada mas a inesperados e bem dolorosos desenlaces. Ainda assim, lutam, correm, não desistem, persistem no sonho. E se atingido positivamente o objectivo desejado, essa incerteza de que estão seguros mas que se mostra insuficiente para os fazer parar, aliada à paixão que os faz correr, só pode resultar em indescritível prazer.

Voltando ao cinema, com este filme se prova que uma das suas facetas mais compensadoras para o espectador se prende com narrativas que se desenvolvem a partir das mais extraordinárias surpresas que o mundo nos reserva. Por muito dramáticas que estas possam revelar-se.



Sumo natural de laranja




Há dias, numa das minhas inúmeras visitas ao norte do país, fui obrigado a uma refeição rápida num café nas imediações de Barcelos. Foi uma senhora de cerca de sessenta anos quem me serviu. Pedi um prego no pão, bem passado para não ter que lutar com a carne para a conseguir mastigar, e perguntei se tinham sumo natural de laranja. Pois que sim, que tinham, disse-me simpaticamente a referida senhora. Minutos mais tarde, muito contente, colocou sobre a minha mesa a sandes e uma lata de Sumol de laranja saída do armário e não do frigorífico. Ou seja, sumo de laranja natural. Juro-vos, ao invés de ficar zangado com a doce senhora deu-me vontade de a abraçar perdoando de imediato o seu erro. Comi a sandes de carne, bebi o Sumol, paguei e saí para a rua debaixo do sorriso maternal daquela mulher tão portuguesa. Estou convicto, é também de pessoas assim, humildes, de uma pureza inequívoca que faz com que tudo se lhes desculpe, que se vai construíndo a identidade de um país, o nosso, e a par enriquecemos com mais uma experiência melíflua que guardamos para sempre nas nossas memórias.


segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

O amor não pode esperar




Esta tarde tive uma reunião de trabalho num edifício de escritórios na Quinta da Fonte, concelho de Oeiras. Depois de circundar com o carro vários blocos empresariais, deparei com o local que me fora descrito. Tendo reparado ser um pouco cedo para a hora marcada para o encontro, ainda assim saí do automóvel logo que consegui estacionar, dirigi-me para a porta principal do prédio e entrei. Uma recepcionista, muito profissional e elegante, conduziu-me até uma pequena sala decorada quase na totalidade por estantes repletas de livros. Serviu-me um café e, delicadamente, pôs-me à vontade. Enquanto esperava, bisbilhotei as estantes puxando para mim alguns dos livros. A certa altura estranhei a presença da obra de Gabriel Garcia Marquez, «O Amor nos Tempos de Cólera», entre inúmeras enciclopédias, manuais técnicos e dicionários. Folheei a pungente história de amor de Florentino Ariza por Fermina Daza e, entre as páginas de paixão e espera pelo outro, vislumbrei um pequeno bilhetinho certamente ali esquecido por alguém. Aparentemente, era de um homem para uma mulher e pese as parcas e muito simples palavras pareceu-me pleno de significado. E de referência a um amor não correspondido.



«Como muito bem disseste, Sílvia, nada sei de ti. De ti nada me disseste e apenas sei aquilo que fui percebendo em mim. Obrigado pelo teu conselho. E, embora me tenhas feito acordar dele, obrigado também pelo sonho.»



Não estava assinado. Também não tive muito mais tempo para pensar no assunto já que entretanto a pessoa com quem me ia reunir entrou e obriguei-me a arrumar de novo o livro na estante de onde o retirara por momentos. Mas tive o tempo suficiente para perceber que, para aquele desconhecido, a vida acontecera e não lhe restara mágoa apesar do seu princípio de paixão não ter sequência nem correspondência na mulher a quem chamava Sílvia. Ironicamente o mesmo acontecera a Florentino Ariza, de Gabriel Garcia Marquez. Mas este tivera a coragem de esperar cinquenta anos por Fermina Daza, o amor da sua vida. No entanto, por muito respeito e admiração que sinta pelo velho escritor latino-americano, acredito que ninguém merece esperar tanto tempo para amar. Entrámos na sala de reuniões onde nos esperava um espanhol que falava inglês como a generalidade dos espanhóis falam a língua de Shakespeare, bastante mal. Parecem cuspir as palavras.

sábado, 17 de Outubro de 2009

Um livro, um filme – O Estranho Caso de Benjamin Button




Quando assisti ao filme «O Estranho Caso de Benjamin Button», confesso que ainda não tinha lido o livro de Francis Scott Fitzgerald, adaptado por David Fincher ao cinema. E arrisco dizer que ainda bem, pois a minha reacção ao trabalho de Fincher teria sido bem menos entusiástica. Na verdade, há em «O Estranho Caso de Benjamin Button» uma diferença clara e fundamental entre a literatura e o cinema. Isto porque a escrita se socorre da história insólita de um homem que nasce velho até desaparecer como bebé para ilustrar a fragilidade do amor e das paixões, que, por maiores que possam um dia ter sido, chegam a desaparecer de forma trágica se não apenas para um de modo igual para os dois elementos do par amoroso. Já o filme fica preso à disparidade temporal entre os dois amantes como se o desencontro amoroso passasse apenas por aí. E esta não é uma diferença pouco importante. Trata-se de uma questão de verosimilhança com a realidade já que acreditamos piamente naquilo que Fitzgerald nos quer transmitir, enquanto a ideia negativa de ficção está irremediavelmente presente na realização de David Fincher. Isto pese toda a carga emocional que o filme possa despejar em nós.



Ausência



Quando era apenas um menino, a minha avó costumava contar-me histórias antes de me ajeitar a roupa da cama e eu entrar directamente no mundo dos sonhos, onde, afinal, ainda hoje me mantenho. Muitas das histórias, narradas de memória, tinha-as aprendido com a sua mãe, minha bisavó, que eu ainda chegara a conhecer mas entretanto já falecida. Uma das minhas maiores dúvidas na época tinha precisamente a ver com o momento em que, um dia, inevitavelmente, pensava eu, todos nos encontraríamos no céu. E perguntei-lhe. Avó, que vais tu dizer à tua mãe quando te encontrares com ela no céu? E a minha avó Maria, desviando o rosto para que eu não percebesse as lágrimas a escorrerem-lhe dos olhos molhados pelas suas faces dóceis, respondeu-me baixinho, de forma quase inaudível, que lhe dizia apenas que lamentava ter estado tanto tempo ausente. Porquê, avó? E, pacientemente, lá me respondeu esfregando-me a cabeça com a sua mão enquanto me dava um beijo na testa e se levantava da beira da cama para que eu finalmente dormisse. Porque a ausência dói, meu neto.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Quilómetro doze



Em entrevista concedida à revista Visão, António Lobo Antunes insurge-se contra a publicação de notícias sobre a sua vida privada. Refere a propósito o escritor que a sua vida nada importa aos outros, o que realmente interessa são os seus livros e a sua escrita. Concordo inteiramente. Também aqui no meu modesto e um tanto ou quanto clandestino blogue o que eu gostaria de sentir que é valorizado nada tem a ver com o (des)interesse pelas questões da minha vida. Mas é que estou tão irritado comigo mesmo que não resisto a comentar convosco em como a falta de concentração, o cansaço e a ansiedade me fizeram bater com o carro em plena A5 eram para aí umas 8.45 horas da noite. Merda, pá! O pior é que aquilo que me levou a sentir ansiedade constato agora que não aconteceu.

E agora vou ali e já volto. Daqui a umas boas horas de concentração no sono. Espero eu.


Mancha humana

[The Fight - 1994, Peter Howson]

Esta tarde, enquanto esperava que chegasse a hora de uma reunião de trabalho marcada três troços de auto-estrada atrás, tive alguns momentos de solidão numa rua apinhada de gente algures em Cascais. Resisti ao dia invulgarmente quente àquela hora – para aí uns quinze quilómetros para as quatro – sentado na esplanada de uma pastelaria sobranceira ao restaurante Visconde da Luz. Fui interrompido na modorra em que mergulhara por um sem abrigo que me suplicava uma esmola e montara o cenário para o peditório pisando a minha própria sombra. As gotas de transpiração que lhe escorriam aos sulcos pela cara ossuda até se perderem nas barbas de meses, molhavam também os colarinhos de uma camisa que ainda guardava em si as velhas memórias do tempo em que fora branca. Remexi o bolso e quando me preparava para dar ao transeunte sem procedência nem destino certos a única moeda de cinquenta cêntimos que tinha comigo, eis que o homem desatou a contar-me em quinta velocidade o curto itinerário da sua desgraçada vida. Matara, fora preso, cumprira a pena, e, libertado três anos antes, desde aí cidadão proscrito. Tive curiosidade. Por que mataste, perguntei. Ora, porque o gajo parecia estar a olhar-me de esguelha. A revelação do homem caiu no chão com um estrondo tão grande que eu mesmo, com o impacto, abanei na cadeira onde me sentara. Parecia? Travei a fundo porque, juro, tive dificuldade em compreender o outro. Sim, parecia. Mas não estava. Fez uma pausa para exercitar um tossido seco. Não, não estava, disseram-me depois que o tipo era estrábico. Mas mereceu morrer, há horas que o gajo estava a apoquentar-me. Sabia lá se era estrábico. E, depois, pensei que podia matá-lo já que ninguém estava a ver.

Engatei a marcha atrás e voltei a guardar os cinquenta cêntimos.



quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Para grandes males, grandes remédios




Algures num país de leste um professor de música convidou um colega e a mulher para irem jantar lá a casa durante a semana. A noite avançava, no outro dia o professor trabalhava e não havia meio dos convidados arredarem pé. Como era um tipo muito bem educado e incapaz de ferir susceptibilidades, o anfitrião tinha alguma dificuldade em fazer-lhes ver o adiantado da hora ou pedir-lhes que continuassem a conversa noutro dia. Só viu uma solução para o imbróglio. Matou-os.




Homem prevenido vale por dois...



Sou pontual. E gosto de me preparar bem para enfrentar qualquer desafio. Por exemplo, levantar-me da cama pela manhã. Levanto-me todos os dias aos cinco para as sete independentemente da hora a que me deite. Sim, porque a hora de deitar nada tem a ver com a hora de levantar. Voltando à pontualidade e à preparação, uso três horários de despertar diferentes para a mesma manhã até que acelero a fundo para a casa de banho. O primeiro, às seis e quarenta e cinco, é um simples exercício (ou treino) a avisar-me que passados cinco minutos o despertador vai de novo tocar e então já a sério. Refiro-me ao horário das seis e cinquenta que me permite ficar mais cinco minutos a maldizer a sorte por ter que me levantar a seguir. E o terceiro toque, às seis e cinquenta e cinco, esse é o definitivo e já não permite facilidades. Funciona também como tiro de partida para o meu dia. E juro-vos, nunca compreendi bem porque é que há por aí tantos tolos que têm o despertador a tocar uma só vez. Um só toque é de uma violência e um risco muito grandes!...

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

28 graus à chuva

[The Travel of Romance: Scene V, 1994 - Eric Fischl]




Tinha bebido demasiado naquele dia. Depois de ter protagonizado uma série infinda de disparates, chegado a casa deitou-se sobre a cama por desfazer e adormeceu vencido pelo álcool em excesso. Era já noite sobre a cidade, o calor anunciava a tempestade e o vento forte fazia estremecer a sombra das árvores no pavimento. Horas mais tarde, acordou sobressaltado. Acordara a sentir um estranho sentimento de culpa tomar conta de si, embora não soubesse o motivo. Ainda perturbado pôs-se de pé, e, sem saber bem como, percebeu que conseguia andar com equilíbrio suficiente para não temer estender-se ao comprido no soalho do quarto. Atravessou a sala, deu um pontapé num dos sofás, uma joelhada no outro e saiu meio atordoado para a rua. O céu parecia desabar sobre o bairro tal era a intensidade da chuva enquanto a noite se iluminava no colorido do relampejar. Apesar do som ensurdecedor da trovoada, pareceu-lhe ouvir ao longe uma criança a chorar. Sentou-se algures num degrau de acesso ao terraço em local bem protegido da água que inundava a madrugada. Desde miúdo que sentia uma inexplicável atracção pelas noites de tempestade como a que observava naquela noite, mas não o suficiente para desejar que um choque eléctrico o libertasse da crispação provocada pela mistura de bebidas desmesuradamente graduadas. Ainda assim, deixou-se ficar sentado na noite até ouvir o silêncio poético próprio dos finais de intempérie. Enquanto escutava, adormeceu. E sonhou. Ela estava linda. Um cão latiu ao longe, os travões de um carro que parara no semáforo a pouco mais de cem metros de si chiaram, a noite já então aguardava o dia, acordou. Ela já lá não estava. Entretanto, na esquina da rua uma velhinha que há muito enlouquecera pôs-se a cantar.



sábado, 10 de Outubro de 2009

Parar o tempo...

[Turkey Pond, 1944 - Andrew Wyeth]


Suponho que não aconteça apenas comigo. Em alturas de menor optimismo e mesmo de alguma necessidade de introspecção, é nas minhas memórias de menino que habitualmente encosto o pensamento e repouso a alma. Sentado num cadeirão de vime que possuo numa das varandas cá de casa, hoje foi um desses dias. E enquanto o calor continuou a subir até tornar o ar pouco menos que respirável, retrocedi mentalmente anos atrás. Viajei até casa dos meus avós, onde passei grande parte da minha infância.

Finais de Setembro, primeiras semanas de Outubro. Esta era a altura em que, depois de colhidas as uvas, o trabalho se desenvolvia na adega da quinta. Ao final do dia, depois de se despedir do pessoal que o ajudava, tal como eu faço amiúde também o meu avô aproveitava para se sentar num enorme cadeirão. Atirava com o chapéu para cima de um mesa de pinho envernizado e recostava-se enquanto limpava com um lenço o suor que lhe molhava a testa. Depois deitava um pouco de água fresca num copo e bebia. Mas, apesar de se lhe perceber a sede que lhe secava a boca, fazia-o muito lentamente, como se saboreasse deliciado a frescura que o líquido frio lhe proporcionava. Cansado, adormecia durante alguns minutos. Acordava apenas ao toque suave da mão da minha avó, fazendo-o estremecer um pouco no cadeirão, ou ao som de um velho relógio de carvalho pendurado algures numa das paredes que suportavam o telheiro onde se protegia do Sol ainda quente àquela hora do dia. Através do velho mostrador, de vidro já bastante baço, podia observar-se os algarismos negros e os ponteiros com um balancim de entremeio a assinalar as horas com razoável sonoridade.

Naquela altura, como hoje, só me ocorria correr para o relógio e pará-lo. Talvez assim pudesse ancorar o tempo.


sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Ela no seu mundo...





Faltam pouco mais de 5 minutos para as 7 horas da tarde, o Holmes Place está bem composto e eu espero tranquilamente pela aula de RPM. Como sempre, ela chega de mansinho e fica muito quieta junto às escadas de acesso ao estúdio à espera do início da aula quase sem dar a perceber aos outros a sua presença. Tem os cabelos castanhos, um castanho muito claro, os cabelos não muito compridos, olhos também castanhos a olharem, eles sim, os olhos dela, irrequietos, para a azáfama habitual de quem se movimenta entre os estúdios, o ginásio, a piscina ou os balneários. Ainda assim, repentinamente o seu olhar parece quedar-se em algo, para, de imediato, quase com brusquidão, voltar à agitação habitual. Normalmente não fala com ninguém, limita-se a esperar pela aula e, circunstancialmente, a responder educadamente a quem a interpela. Mas mesmo nesses momentos tem a tendência para refugiar o seu olhar novamente no infinito particular escondendo-o de quem se lhe dirige. Escolhe quase sempre a mesma bicicleta que adapta calmamente a si enquanto mastiga uma pastilha com toda a suavidade do mundo, do mundo. De vez em quando sorri a uma ou outra laracha do instrutor de serviço, sorri enquanto se aplica generosamente durante todo o tempo que dura o exercício. No final, transpiração a escorrer-lhe do rosto para a T-shirt também ela encharcada do esforço desenvolvido, encaminha-se silenciosamente para o balneário. Estranhamente, pela forma calada como se movimenta, pelo facto de parecer estar só no meio do grupo, e apesar de perceber que ela nem sequer reparou na minha existência, sinto-me muito próximo desta mulher intrigante que me parece tão longe de tomar conhecimento da elegância com que se move naquele que parece ser um mundo muito seu, apenas seu, o mundo dela, ela no seu mundo.



Suicídio

[Anxiety, 1894 - Edvard Munch]



«O suicídio é a grande questão filosófica do nosso tempo; decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia.»

Albert Camus





Leio os jornais e constato que, em França, um gestor ligado à France Telekom se demitiu das suas funções ao ver-se associado ao elevado número de suicídios entre os trabalhadores da empresa. Já em Portugal, o suicídio tem sido um preocupante factor de evasão para muitos dos profissionais ligados às polícias, para citar somente uma das classes profissionais com maior taxa de pessoas que desistem de viver. Assustador, mas…

Mas, porque pôr termo à própria vida é um fenómeno muito mais vasto e complexo e por isso longe de se resumir a causas ligadas a questões laborais. O suicídio é não apenas uma questão filosófica, como a definiu o pensador Albert Camus, mas sobretudo um factor que emerge da mais profunda característica do ser humano: a sensibilidade. E normalmente vem associado ao desespero e ao sofrimento; desespero e sofrimento esses que podem muito bem não ter a ver apenas com aquilo que vulgarmente designamos de cariz emocional ou sentimental.

Basta passarmos um pouco os olhos pela internet e constatamos que nomes sonantes da nossa história escolheram essa via para terminar os seus dias. E se à escritora Virginia Woolf ou ao poeta Antero de Quental se poderá avaliar os actos finais da sua vida por sentirem demasiado, já o político brasileiro Getúlio Vargas fê-lo por questões muito pessoais de dignidade e honra enquanto o também famoso escritor e suicida Ernest Hemingway decidiu não permitir à doença que lhe fizesse chegar a morte procurando-a, e encontrando-a, ele mesmo.

O suicídio é dos actos mais controversos com que a humanidade se debate. E é tanto assim que o mesmo caso pode ser designado de acto de coragem ou de extrema cobardia. Mas, queiramos ou não, tal como referi atrás existe algo de extraordinariamente humano nesta espécie de auto-estrada da vida onde o ser humano se transporta rapidamente até ao fim. E se alguns, vitimados por desastres pessoais da mais diversa índole, lutam desesperadamente por se agarrar à vida, outros, sem que do lado de fora percebamos muito bem porquê, decidem não existir mais motivação para continuar nas suas rotinas diárias. Algumas religiões definem o suicídio como um pecado capital, sociedades civis existem que tratam a morte voluntariamente causada pelo próprio como crime. Eu persisto em pensar que o suicídio é uma prerrogativa dos homens e das mulheres chegados àquilo que se poderá catalogar como encruzilhada da vida. E quem opta por partir desse modo merece o total respeito do seu semelhante. E se outro motivo não existisse resta sempre o de sabermos que a resistência à dor não se reflecte de modo igual para todos nós.

Pese tudo o que foi afirmado, e para finalizar, socorro-me no entanto de um provérbio saído da imensa sabedoria popular e que é ao mesmo tempo uma quase verdade absoluta: é que, não o esqueçamos, «só a morte não tem remédio.»




quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

O suspeito de memória fraca

[Face Dances, 1981 - Peter Blake]



Algures numa cidade do nordeste brasileiro, uma mulher foi encontrada na margem de um regato já sem vida. Culpado em primeira instância? Um projéctil alojado junto ao coração e identificado como tendo sido disparado por uma pistola Walter. Mas como em princípio as pistolas não se disparam sem ajuda, havia que procurar o autor do disparo. Um homem, um criminoso já com cadastro longo e a gozar de liberdade condicional, tinha sido visto várias vezes a rondar a casa da infeliz vítima. Identificado como suspeito, foi chamado à esquadra da pequena cidade de João Gaudêncio. Não negando ter atirado na pobre mulher, o assassino não só não apresentou um móbil para o crime como alegou inocência por ter-se esquecido que a arma estava carregada. E sugeriu mesmo aos polícias de serviço no dia do interrogatório que fossem questionar os guardas dos presídios onde estivera encarcerado. Eles testemunhariam sem dificuldade de maior a sua inculpabilidade pois todos sabiam como era fraco de memória.


Uma estrela reluzente…

[Marion Cotillard via E Deus Criou a Mulher]






…e comovente no firmamento de «Inimigos Públicos», o filme.




terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Sacanas sem Lei






Tarantino, o experimentalista


«Sacanas sem Lei», «Inglourious Basterds» no seu título original, é, antes de mais, um filme de homenagem à escrita em cinema através da fabulosa construção de diálogos realizada por Quentin Tarantino. E este “realizada por…” não é aqui ingénuo porque, paradoxalmente ou talvez não, é essa a grande aposta do genial cineasta, realizador do filme, junto do público em geral. Isto se acreditarmos que durante o visionamento da fita, o comum dos espectadores não irá sequer lembrar as referências ao cinema como condutor irreversível dos destinos do mundo (do decurso da 2ª Guerra Mundial, neste caso) nem dará grande importância à homenagem a «Quel Maledetto Treno Blindato» (1978), de Enzo Castellari. E, muito menos, verá na película a arder com facilidade tremenda o emotivo drama a que assistimos em «Cinema Paraíso» (1988), de Giuseppe Tornatore. Não, Tarantino ultrapassa, em matéria de qualidade e inteligência de diálogos, aquele que é outro dos mais famosos escritores de cinema que também realizam os seus filmes, Woody Allen. E fá-lo através de uma pequeníssima diferença: atribuindo aos diversos diálogos um jogo de sonoridade que uma mesma língua pode atingir dada a origem do orador. E para mim este é, repito, o maior poder de sedução de «Sacanas sem Lei».

Apesar disto, e do brilhante primeiro capítulo dos vários em que o filme se divide, «Sacanas sem Lei» não me deixou eufórico. É um filme pleno de cinefilia, tem o cunho de Tarantino, possui ritmo e uma narrativa eficaz e eloquente, mas não me parece que atinja um estatuto que é dado àquelas obras intemporais que não queremos deixar de rever. E se o americano das montanhas Aldo Raine (Brad Pitt) ganha a guerra, no final, ao nazi Hans Landal (Christoph Waltz), a verdade é que enquanto Pitt se limita a imitar-se a si mesmo noutras personagens pictóricas (lembro-me, por exemplo, do Brad Pitt cigano em «Snatch , Porcos e Diamantes» (2000), de Guy Ritchie) já o austríaco Christoph Waltz personaliza o outro grande trunfo do filme numa prestação irrepreensível de oficial das tropas de Hitler. Embora, claro, com a força de uma direcção de actores protagonizada pelo peculiar realizador norte-americano, não se possa afirmar em circunstância alguma que um único dos actores presentes em cena não cumprisse com rigor e qualidade o seu papel. Mas basta que nos lembremos de Samuel L. Jackson em «Jackie Brown» (1997) e «Pulp Fiction» (1994), e de John Travolta, Bruce Willis e Uma Thurman também em «Pulp Fiction», para, conjuntamente com «Reservoir Dogs» (1992), percebermos onde está o melhor cinema de Quentin Tarantino. E a sua verdadeira vocação.

Resumindo, «Sacanas sem Lei» é um grande filme sem ser um filme brilhante, agrada mas não permite a euforia, satisfaz mas não provoca dependência. Digamos que é um Quentin Tarantino a explorar materiais que não colam inteiramente à sua arte. E qual é a sua arte? A do cinema puro e duro sem concessões de qualquer espécie mas também sem o apelo constante das referências. Porquê? Porque não necessita de o fazer e porque estas podem contaminar a sua natureza de artista livre.


«Inglourious Basterds», de Quentin Tarantino, com Brad Pitt, Christoph Waltz e Eli Roth







Desalento...

[Frank Auerbach, 1975-76 - Lucian Freud]





Tempos houve em que adorava a política e me entusiasmava com a actividade partidária. Enquanto estudante, e dirigente associativo, cheguei a participar como convidado em congressos e outras reuniões do género, desde o PCP ao PSD mas sempre com maior incidência no PS. Antes disso, muito antes disso, ainda sentado nas velhas secretárias da - à altura - escola primária, editava o meu próprio jornal com uma tiragem de apenas um exemplar. Nele, gostava de dar destaque àqueles pequenos partidos saídos do romantismo próprio de um povo que vivera durante anos (anos de mais, sublinho) na ditadura e então dava largas à liberdade que o 25 de Abril lhe proporcionara. Emocionava-me com as músicas de Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto e tantos outros. Lembro-me ainda de um célebre congresso de Associações de Estudantes no Porto onde cheguei à fala, devido a uma feliz coincidência de eventos, com Mário Soares, Manuel Alegre e o já falecido Salgado Zenha, para apenas citar estes. Para um jovem estudante como eu, sonhador e ingénuo que imaginava o mundo (e a vida) como um paraíso onde o oportunismo, a mentira, a arrogância e o despotismo não existiam, foram momentos importantes. Momentos que me levaram mais tarde a passar a noite em branco no velho quarto do Hotel Peninsular, junto à estação de S. Bento, no Porto, onde ficara hospedado. Caramba, sonhava eu de olhar fixo no tecto amarelado do quarto, eu queria ser como aqueles homens, queria poder ajudar a mudar o mundo, torná-lo num lugar melhor para todos!

Hoje, confesso, eu como tanta gente por aí, detesto a política e tenho muito pouco respeito pela esmagadora maioria dos políticos. E apesar de não dever - nem querer – queixar-me do rumo que a minha vida tomou, magoa-me saber que algures neste país há tantas pessoas deslocadas dos seus sonhos de menino/a. Saber como continua a haver professores que são de Évora e estão a dar aulas em Bragança (e vice-versa) tão violentamente afastados das suas famílias. Como não posso igualmente ignorar que quem não tem capacidade económica para adquirir um seguro de saúde continua a aguardar meses por uma consulta de uma qualquer especialidade banal, que há por aí tantos manuscritos na gaveta escritos por grandes escritores que irão morrer no anonimato, que A foi colocado em Ciências Farmacêuticas depois de tanto ter estudado para Medicina e no entretanto andamos a contratar médicos a Cuba, Espanha e sabe-se lá onde mais, que famílias inteiras passam por dificuldades porque as empresas onde trabalhavam resolveram mudar-se para um país de mão-de-obra ainda mais barata que a nossa por menos qualificada que aqueloutra seja…

Apesar de tudo isto, hoje discutimos apenas o novo aeroporto de Lisboa, o TGV que irá servir não sei muito bem a quem e para quê se exceptuarmos as empresas que vão estar associadas à edificação do projecto, que insistimos no caso Freeport sem que alguém seja levado a tribunal, e, agora, até o afastamento de um bloco noticioso de uma jornalista que na sua actividade tem atropelado todos os princípios associados à prática de tão nobre profissão se tornou um caso nacional já com eco em Espanha. Enquanto isso, os portugueses correm para os centros comerciais mas os museus estão vazios, os bancos arregaçam as mangas para a concessão de empréstimos pessoais para roupas de marca, novos modelos de LCD e Plasmas, carros de alta cilindrada saem do stand para que possamos rapidamente conhecer os quilómetros e quilómetros de auto-estradas que irremediavelmente nos vão afastando e não aproximando de uma Europa com uma correcta rede hospitalar, uma rede de escolas e infra-estruturas associadas para os jovens europeus praticarem desporto em vez de ficarem a assisti-lo do sofá, de universidades bem orientadas para as verdadeiras necessidades das sociedades e todo um conjunto de programas e instituições do estado norteados para intervirem no apoio aos cidadãos.

Confesso-vos, nunca deixei de exercer o meu direito ao voto. Que como tanto se fala em altura de eleições não é apenas um direito, é igualmente um dever. Mas, desta vez, estou tentado a passar ao lado destas guerras de Alecrim e Manjerona que tão pouco têm resultado a favor daquilo que realmente importa: o bem-estar do cidadão. A todos os níveis. Porque, em boa verdade, não se governa para as pessoas. Pelo contrário, as pessoas parecem ser apenas um instrumento de suporte para mais uma invenção do homem pagando impostos sem qualquer tipo de retorno.

É um sentimento de uma simplicidade que somente aspira a despertar um sorriso a quem dele tenha conhecimento por estas palavras, mas, juro, apetecia-me tanto voltar a ser criança.




segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

A sedutora meiguice...

[Rose Byrne via E Deus Criou a Mulher]




…de um sorriso e de um olhar.

sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Disponível para Amar




(Porque alguém acedeu hoje ao Cartório Mental pesquisando no Google sobre o filme «Disponível para Amar», recupero para o blogue o texto que escrevi sobre essa extraordinária experiência de cinema vivida por mim alguns anos atrás; escrito precisamente no dia em que o assisti no King Triplex)










O Cinema feito poesia

Hong Kong, 1962. Dois casais jovens mudam-se no mesmo dia e à mesma hora para dois quartos alugados no mesmo edifício, no mesmo andar, apartamentos contíguos, porta com porta. Ele é marido e jornalista, ela é esposa e secretária. O marido dela trabalha no Japão e passa muito tempo fora, a mulher dele chega muitas vezes tarde, ele e ela descobrem que afinal os seus dois cônjuges são amantes.

Esta é, sucintamente, a base para a narrativa que se desenvolve a partir daqui. Um filme carregado de extremo erotismo sem que por uma única vez esse facto tivesse sido sugerido por qualquer tipo de manifestação física. Um filme que decorre lentamente, extremamente lento por vezes. Uma história marcada ao ritmo da forte sonoridade de um instrumento de orquestra, intercalada pela voz romântica e melodiosa de Nat King Cole. Nas cenas de rua chove permanentemente, nas cenas de casa o ritmo é o dos vários vestidos moldados pelo belíssimo corpo da protagonista passeando-se entre o quarto e a cozinha ou saindo para comprar arroz. E, também aí, enfeitando delicadamente as ruas com a sua elegância. Do céu cai uma chuva insistente e persistente que obriga ao refúgio em locais isolados nas noites desertas. Um filme que se vai repetindo como se de um poema se tratasse, como se uma cena aguardasse a rima de outra.

Acabam por se apaixonar, ensaiam actos de rompimento dela com o marido. Jamais cederão no entanto ao que o corpo lhes pede, como se pedissem desculpa por se desejarem, como se o amor deles fosse de impossível consumação. A estória decorre em Hong Kong ao ritmo de Nat King Cole mas relembra por vezes o bairro de La Boca, em Buenos Aires, e a voz quente e arrebatada de Carlos Gardel e do seu tango.

Feito de avanços e recuos sem nunca chegar afinal a lado algum, resignado e grave, este é um filme puríssimo, de grande frugalidade de cenários e gentes (jamais vemos os rostos dos dois cônjuges adúlteros, por exemplo). Respeitando a cultura chinesa de inícios da década de sessenta, é igualmente uma película que decorre debaixo de um delicioso… tédio.

Quem tiver a coragem de se perder nos aprazíveis rodeios dos jogos de sedução, não tema, vá ver. «Disponível para Amar» é, indiscutivelmente, um belíssimo filme.




Disponível para Amar, de Wong Kar-Wai, com Tony Leung e Maggie Cheung








terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Inimigos Públicos - O filme









Inimigo Público nº 1 - Paixão e morte na Chicago dos anos 30


Na época da Grande Depressão norte-americana, anos 30, viveu naquele país um Robin Hood dos tempos modernos – à altura, bem entendido – de seu nome John Dillinger. Carismático, louco, romântico, apaixonado, aventureiro e temerário, Dillinger assaltou bancos, apenas bancos!, e criou empatia num povo a viver se não na miséria em grandes dificuldades financeiras em clara oposição à opulência das instituições bancárias. E foi isso mesmo, essa aventura real que a ficção gostaria de ter criado, que Michael Mann trouxe de forma brilhante para o cinema. Com respeito pela narrativa mas com especial dedicação àquilo que o vem celebrizando e que acabou por fazer (também) deste um filme formalmente irrepreensível. Aliás, bem mais que irrepreensível: sedutor.

Falemos de Michael Mann. Entre outras obras também elas importantes para o cinema, o realizador já nos obsequiou com filmes como «Heat» (1995), «O Informador» (1999), «Ali» (2001), «Colateral» (2004) e «Miami Vice» (2006). Agora, usando as câmaras digitais tão ao seu gosto e recorrendo aos close-up de modo quase cirúrgico e muito a propósito, Mann filma a sua Chicago e um nome mítico da história criminal norte-americana. Em paralelo, apresenta o histórico dos primórdios de uma das maiores e mais famosas organizações policiais do mundo, o FBI. Na altura, já com J. Edgar Hoover em grande forma. Era o início da investigação policial organizada e com recurso à tecnologia e o fim de um período de transição entre o bandido de pistola no coldre, bem ao jeito do velho oeste, e das actuais grandes organizações criminosas. Nesse período de mudança, John Dillinger foi um dos últimos marginais a viverem sobretudo do instinto e do engenho pessoais.

Tecnicamente perfeito, como já referi, a narrativa assume igualmente uma importância fundamental. Quer através dos feitos de Dillinger, um bandido e provocador simpático, da sua relação apaixonada com Billie Frechette (Marion Cotillard), quer em relação à perseguição que lhe é movida pelos homens do agente especial do FBI encarregado do caso, Melvin Purvis (Christian Bale). E é quase sem recuperar o fôlego que vemos desfilar na tela um amor maior que a vida, em que a coragem para o viver se sobrepõe à razão que em muitos casos é inimiga do coração, com a sucessão de perseguições e fugas realizadas com o estardalhaço necessário apenas para ilustrar os factos. E em 140 minutos de película em momento algum o filme se torna enfadonho.

Contando com interpretações meritórias de Johnny Depp, num registo que não lhe é muito habitual, e de Christian Bale, um polivalente incapaz de um desempenho sem qualidade, é o olhar triste de Marion Cotillard e as grossas lágrimas que rolam pelas suas faces de angústia, saudade e consequente sofrimento, que ficam a bailar na nossa mente muitas horas depois do filme ter terminado. Quanto a Dillinger, morreu assassinado cobardemente pelo FBI e atraiçoado por quem confiava depois de ter assistido no cinema a «Manhattan Melodrama», filme protagonizado por Clark Gable e de produção precisamente do ano da sua morte, 1934. Obrigatório.







Public Enemies, de Michael Mann, com Johnny Depp, Marion Cotillard e Christian Bale










segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Inimigos Públicos - Brevíssima impressão






«Importante não é saber de onde vimos mas sim para onde vamos.» John Dillinger, personagem central do filme «Public Enemies», de Michael Mann



[1.00 hora da madrugada, o que significa que, sendo amanhã dia de trabalho, já é tarde para elaborar uma crítica sobre um filme que merece algum cuidado em tudo o que sobre ele se escreva; daí que um texto mais alongado fique para depois, mas como aperitivo aqui fica o elogio a um grande filme e a uma das mais espantosas realizações que vi serem conseguidas nos últimos tempos na tela grande do cinema.]


terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Gripe A: funerais devidamente assegurados!





Leio no Oje, jornal diário especializado em economia, que o sector funerário já tem idealizado um plano de contingência para a Gripe A no caso de pandemia. O jornal cita Paulo Carreira, Director Comercial da Servilusa (uma das principais funerárias cá do burgo) afirmando que "o plano de contingência foi delineado para que pudéssemos continuar a assegurar a qualidade e rapidez dos nossos serviços em situação de pandemia de gripe A".

Muito obrigado, o país já pode dormir descansado, temos todos funeral assegurado. E com qualidade e rapidez!



sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

Alfred Hitchcock - 110 anos passados sobre a data do seu nascimento




Se fosse vivo, Alfred Hitchcock teria cumprido ontem 110 anos. Fica aqui uma pequena homenagem ao mestre do ‘suspense’, recordando um dos seus filmes mais queridos pelos espectadores de todo o mundo numa crítica já antes publicada aqui no blogue.







PSYCHO


Filme emblemático do mestre do ‘suspense’, esta obra representa igualmente uma vertiginosa viagem aos labirínticos tormentos da mente humana. Uma viagem tão sinistra quanto fascinante.

Uma jovem, Marion Crane (Janet Leigh), decide roubar uma elevada quantia de dinheiro ao seu patrão com o intuito de poder ficar definitivamente com Sam (John Gavin), o seu amante. Na posse dos 40 000 dólares do furto, Marion lança-se à estrada. Faz-se noite e chove copiosamente, a mulher acaba por sair para uma estrada secundária e dirigir-se a um motel, o Motel Bates. Ao largo do edifício de hospedagem apenas se vislumbra no topo de uma colina uma mansão de estilo gótico, tão imponente quanto assustadora, mesmo de visão arrepiante. É naquele lugar que vivem Norman Bates (Anthony Perkins), que dirige o motel, e a sua mãe, aparentemente uma senhora já idosa mas de personalidade autoritária e possessiva que oprime o filho.

Esta é a premissa inicial para “Psycho”, obra máxima do cinema de terror onde assume especial relevância a construção do perfil psicológico das personagens, em especial a de Bates numa interpretação magistral de Anthony Perkins. Esta premissa representa, aliás, uma das mais surpreendentes características da realização de Hitchcock ao rasgar todas as convenções até então do cinema do género matando a sua protagonista decorrido somente cerca de um quarto de filme. Em boa verdade, tudo o que sucede até que o espectador é encaminhado para o Motel Bates perde qualquer significado posterior resultando apenas num estratagema para alcançar esse objectivo. É então que se desenvolve o essencial da acção, num desfilar brilhante e ininterrupto de intriga, ‘suspense’ e genuíno terror. Terror esse onde não existe espaço para o elemento sobrenatural já que tudo o que nos inquieta resulta dos mais recônditos labirintos da mente humana. Tudo nele é real, ou seja, passível de acontecer. É quando Lila (Vera Miles), a irmã de Marion, intrigada com o desaparecimento desta, segue na sua busca na companhia de Sam, o amante da irmã. Também no encalço da desaparecida, embora mais preocupado na recuperação do dinheiro, vai o detective Arbogast (Martin Balsam).

O filme, com argumento de Joseph Stefano, é uma consequência do livro de Robert Bloch. No entanto, várias alterações foram promovidas na obra de Hitchcock uma vez que o livro se baseava na história verídica de Ed Gein, um psicopata do Winsconsin que por volta dos anos 50 aterrorizou a pequena localidade campesina onde nascera e vivia. Assim, a acção foi trasladada de uma quinta para um motel e o lúgubre protagonista da história tornou-se num indivíduo fisicamente mais delicado. Neste âmbito, é ainda de realçar a sóbria corporização idealizada por Perkins de uma personagem sinistra que vivia assombrada pelo fantasma da mãe. Nesta realização sublime, são inúmeras e memoráveis algumas cenas de tensão. Verdadeiramente antológicas são a cena do assassinato no chuveiro onde a tensão se adensa com o som dos violinos da fabulosa partitura de Bernard Herrman a acompanharem o percurso do punhal até se enterrar dolorosamente no ventre da vítima, não descurando o pormenor posterior da água envolvida em sangue escoando do banheiro, e a cena do monólogo final. São cenas que perdurarão para sempre indiferentes ao definhar do tempo.

Não sendo, talvez, a obra de Hitchcock mais reputada pelos especialistas, onde filmes quase todos eles da sua fase americana como “A Janela Indiscreta” (1954) e “Vertigo” (1958) possuem um lugar de relevo, “Psycho” é, no entanto, e muito justamente, um dos mais adorados filmes por parte de cinéfilos de várias gerações e o seu maior sucesso comercial. Mas não estão sós, os cinéfilos. Em 1989, a reconhecida revista inglesa “Time Out” questionou 60 realizadores de todo o mundo sobre os 100 melhores filmes de sempre. “Psycho” foi escrutinado na 14ª posição, o que é um dado verdadeiramente estimulante para um filme do género.

Em 1983 e 1986 surgiram as inevitáveis sequelas. Uma levada a cabo por Richard Franklin, a primeira, e a outra pelo próprio Anthony Perkins que protagonizou os dois filmes. Em 1998, Gus Van Sant dirigiu um ‘remake’ que respeitava escrupulosamente o enredo da obra original. Nenhum destes filmes logrou ultrapassar, sequer aproximar-se, do fascínio macabro que o trabalho de Hitchcock alcançou. Para isso muito contribuíram a fotografia de John L. Russel, um sombrio e inigualável preto e branco, e a já referida música de Bernard Herrman composta de instrumentos de cordas. Tecnicamente perfeito e contando com interpretações sem mácula de todo o elenco, “Psycho” é pois um filme deslumbrante onde a espiral de tensão se adensa na aturdida mente do espectador. Obrigado, mestre.

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Madonna...

[Madonna, 1894-95 - Edvard Munch]


Um acidente pessoal que me provocou um ligeiro traumatismo craniano e um arreliador e muito pouco estético hematoma no lábio, fez com que este fim de semana me deslocasse às urgências de uma unidade pública de saúde (vulgo hospital). Mas não é minha intenção vir aqui à clandestinidade do meu blogue dar conta de alguma reclamação. Não, venho apenas fazer um pedido: dados os tempos de espera, as condições de atendimento e o desfilar de desgraças mesmo em frente aos meus olhos, por favor, para a próxima deixem-me morrer. Talvez Ela me acolha nos seus braços.