quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

O Fabuloso Destino de Amélie [2001]








[porque alguém tentou aceder hoje ao Cartório Mental buscando por este delicioso filme francês]




Amélia dos olhos doces


Desculpem tão rebuscada citação, mas Voltaire disse um dia que "a delicadeza é para o espírito aquilo que a graça é para o rosto". E Voltaire não teve a felicidade de conhecer Amélie, Amélie Poulain. Amélie, essa, tem um sorriso garoto a baloiçar-lhe nos lábios, um olhar meio malandro a observar o mundo que a rodeia como se a cada momento se preparasse para pregar uma partida a alguém. Vê tudo através de uns olhos grandes, enormes, do tamanho das fantasias que lhe invadem constantemente o cérebro.

No princípio foi assim: Amélie teve uma infância infeliz. Vítima de uma enfermidade que afinal não tinha mas que lhe fora erradamente diagnosticada, a pobre viveu uma meninice arredada do convívio com as outras crianças. Perdeu a mãe e acabou por perder também o pai. Uma porque morreu e o outro porque não quis mais a vida. Jean-Pierre Jeunet, o realizador, começa o seu filme muito ao jeito de «Magnólia», assentando a génese da narrativa num processo resultante do efeito dos acasos que se conjugam formando estranhas coincidências.

Depois: não, uma infância infeliz não tem necessariamente que originar um adulto amargurado. E Jeunet inicia sob este pressuposto uma áurea de teórico positivismo sobre a vida e seus cambiantes que não mais abandonará até final.

E também: falei aqui de Voltaire, chamo agora a este comentário Oscar Wilde. Este afirmou, grosso modo, que "o egoísta não é o que vive como quer mas o que exige que os outros vivam como ele quer". Certo, Sr. Wilde, mas reparo que depois o senhor afirmou também que "o altruísta é aquele que deixa os outros viverem sem interferir nas suas vidas". Errado, nada de mais errado, prova-nos Amélie Poulain.

«Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain», no seu título original, é um filme longe do tradicional rumo do cinema francês. E também do cinema europeu o que eventualmente terá acarretado sobre si o ostracismo do Festival de Cannes. Por vaidade e presunção? Simples incompetência analítica? Talvez não uma ou sequer a outra, uma mera disfunção crítica, quem sabe, um erro crasso, acredito, uma grande injustiça, não duvido. Longe do habitual realismo tão obscuro quanto pessimista do citado cinema europeu, este filme evoca um certo imaginário infantil aqui transportado para a nostalgia de que são formadas as memórias dos adultos. Um filme onde se cruzam histórias de uns, os da ficção, que se fundem nas de outros, os da realidade. Histórias filmadas muito a propósito no típico bairro parisiense de Montmartre. Um filme que é um tributo à cor e à alegria, imensamente rico nas variadas personagens que o percorrem. Personagens de ficção copiadas da realidade que vivem as suas vidas de forma quase resignada, incapazes da ambição da verdadeira felicidade. É Amélie quem se intromete nessas vidas e lhes procura, por vezes com tão pouco, dar um novo sentido. E, embrenhada em tarefas altruístas, nem se apercebe como ela mesma receia dar esse passo na sua vida, como ela mesma tem medo de ser feliz.

E é assim que decorre uma das mais interessantes comédias do cinema francês toda ela passada num clima impregnado de fantasia e brilho. Um filme tecnicamente excelente, recheado de efeitos especiais que permitem um estado de espírito estranho pela suave tranquilidade que a sua visão transmite. Diria ainda que é um filme baseado em bons princípios, em pequenas coisas de que às vezes julgamos poder prescindir no dia-a-dia mas que poderão revelar-se essenciais ao equilíbrio emocional de cada um.

Destaque para Audrey Tautou a actriz que protagoniza Amélie, já que o seu rosto cândido espelha as boas intenções do filme e o seu trabalho de interpretação é excelente. Destaque seguinte para a banda sonora que nunca esquece que é a Paris dos parisienses e não a Paris das capas de revista onde se desenvolve a narrativa. Destaque final, num filme intenso em personagens caricaturais, para aquele indivíduo meio esquizofrénico, meio paranóico, que vive numa das mesas do café onde Amélie trabalha. Um tipo que se entretém a destruir as suas relações amorosas registando num pequeno gravador suspeitas em forma de delírios. Hilariante, no mínimo.

Por vezes sabe bem ver um filme assim.



«O Fabuloso destino de Amélie», de Jean-Pierre Jeunet, com Audrey Tautou e Mathieu Kassovitz




O sentido da vida

[Via E Deus Criou a Mulher, Eliza Sys]



Por que escondes os teus olhos, diz, e dizes sempre não?...





quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

O Amor em Tempo de Emigração

[ Mujer con los Brazos Cruzados, Pablo Picasso]




Morreu com 75 e há mais de 18 anos, a minha tia Joana. Irmã do meu avô era minha tia apenas em segundo grau. Esta carta, descobri-a ainda não há muito em papel amarelecido pelo tempo e de caligrafia quase sumida numa velha caixa que pertencera ao irmão, o pai da minha mãe e meu avô. Tenho a plena certeza que a minha tia-avó Joana não se importaria, caso fosse viva, que a desse a conhecer. Apenas como exemplo e prova de um grande amor, o amor que ela nutriu por um homem que lhe deu a esperança mas que, ao contrário das muitas promessas que lhe fez, a viria a esquecer.



[tomei a liberdade de corrigir alguns erros de português e actualizar o vocabulário para os nossos dias, mas o essencial está lá]




Salvador da Baía, 9 de Janeiro de 1940.


Minha querida Joana,

Aqui no Brasil o barco atracou ao cais ainda o Sol não nascera lá nos céus. Foi uma viagem longa e cansativa, chegaram doentes muitos de nós, mas eu, com a graça de Deus, estou bem. É quase noite à hora a que te escrevo desde uma casa térrea de telhado de colmo que fica bem junto à cidade e onde ficámos alojados. O calor aqui é muito abafado. Chove e faz Sol, faz Sol e chove e nunca deixamos de sentir um afrontamento que leva um homem quase ao desespero nesta humidade sufocante que não nos deixa respirar bem. As pessoas são simpáticas, não te preocupes. Há por aqui muitos negros e mestiços, homens e mulheres que falam muito lentamente. Como se a vida para eles durasse o dobro do que é normal e assim dispusessem de todo o tempo do mundo. Salvador é uma cidade grande, um pouco confusa mas muito bonita. Tem uma zona que eles aqui chamam de Pelourinho mas que faz lembrar as nossas cidades aí em Portugal.

Faz apenas quatro dias e quatro noites que cheguei e tenho muitas saudades da nossa terra. E tuas. Das tuas mãos na minha pele, Joana. Dos meus lábios nos teus, do meu corpo colado ao teu, lembras-te? Não me sais da cabeça como não me quero esquecer nunca mais da nossa última noite. Quando te subi a saia com as mãos que Deus me deu e me enrosquei nas tuas pernas, entregaste-te a mim com tanta paixão, tanta generosidade, que quase desmaiei de alegria. Como tu és linda, Joana. Como és pura e bondosa. Não hão-de passar muitos meses até que consiga trazer-te para cá. Teremos a nossa casa, os nossos filhos, seremos muito felizes. Farei tudo tal como te prometi. Prometi a ti e prometo-o a mim.

Agora vou ter que te deixar. Amanhã a alvorada é muito cedo e o patrão passa revista aos trabalhadores logo no início do trabalho e eu não quero botar má figura. Dá cumprimentos meus ao teu irmão, esse maluco, ao Zé da taberna, ele que não beba tanto, ao Joaquim Taneco, meu grande amigo, e à namorada dele e tua amiga, a Adozinda do Ti António Pescador.

Para ti, minha Joana, minha mulher, um beijo. Um beijo deste que te ama e não te vai esquecer nunca.

Teu Álvaro.




Como sugeri atrás, a tia Joana nunca chegou a casar. Viveu uma espera que se prolongou até ao crepúsculo da sua vida. Uma espera longa e infrutífera que só terminou quando soube, por um parente emigrante no Brasil e de férias por cá, que o Álvaro dela, o único e grande amor da sua vida, casara com uma baiana, tivera três filhos todos homens mas fora infeliz ao morrer ainda muito jovem acometido de estranhas febres que nenhum médico conseguira debelar. Consta-se que ao saber da notícia se limitou a sorrir e desviar o olhar de quem, afogueado pelo receio da reacção que desencadearia com a revelação, lha dava. Esta foi a única prova que encontrei que lembra a sua dedicação a um homem que não soube honrar a mulher que se lhe entregara e lhe estava prometida.




terça-feira, 24 de Novembro de 2009

A felicidade por decreto





Provavelmente como acontece com tanta gente por aí, tem dias em que me sinto particularmente entristecido. E aborrece-me a ideia de que não somos livres para ser infelizes. Não, não falo de uma situação plenamente justificada e universalmente aceite como por exemplo a perda provocada pela morte. Ou de outra situação ao acaso dentro do mesmo pressuposto de prévia aceitação da tristeza como uma normalidade civilizacional.

Em termos sociais, vivemos num mundo de uma complexidade psicológica castigadora para quem aspire ao sucesso pessoal e não queira seguir as regras. Se um dia mais cinzento me colocar menos alegre, as pessoas vão olhar-me de modo diferente. Se uma qualquer má disposição física que por pudor decido omitir aos outros me entristece, então já não serei a mesma pessoa. Se tenho contas por pagar e nem imagino como o fazer, sou obrigado a sorrir para o mundo. Em resumo, em todas estas situações é de bom-tom, isto é, de completa boa educação mostrar uma felicidade que posso estar longe de sentir. Caso contrário, entro em desvio no meio social que me rodeia.

Falei há pouco na perda pela morte. Mas se a perda, se a ausência do outro se der em plena vida dos dois? Então terei que inventar algo que me ofereça uma espécie de redenção emocional. Algo que me anime e não me torne o centro das atenções do mundo que me está próximo. Não, os homens e mulheres de hoje não têm liberdade para se sentirem infelizes. E para não serem apontados a dedo terão que construir mecanismos de aparências – físicas, emocionais, profissionais, consumistas… – que os façam estar à altura. E este à altura aplica-se às mais banais situações do dia-a-dia. Desde o trabalho ao amor, desde a família aos amigos. Estaremos nós à altura daquele trabalho? Daquela mulher ou daquele homem? De determinada relação?

E na televisão, no cinema, nos diversos géneros de anúncios que desfilam diariamente perante nós, somos brindados com modelos perfeitos de homens e de mulheres. Supostamente modelos que nos confrontam com a felicidade mas que, ironicamente, só nos trazem a infelicidade. Porquê? Porque muito simplesmente não estamos à altura. Mais grave que isto, a felicidade que nos prometem está cada vez mais dependente do valor do nosso saldo. Terei mais saúde, mais amor, mais credibilidade, mais liberdade quanto maiores forem os dígitos no meu saldo.

Tem dias em que me apetece ficar infeliz. Mas sei que de uma forma ou outra terei a devida punição pelo arrojo do meu desejo.




[escrevi este texto há algum tempo atrás; mas, para mim, faz todo o sentido que o divulgue hoje]



Saber de experiência feito

[Reflection with two children (self portrait) - 1965 - Lucian Freud]



Anos atrás, tinha eu 9 ou 10 anos de idade, de mão dada com a minha mãe fiz uma visita a uma das minhas avós, no caso em questão a mãe da minha mãe enferma numa cama de hospital. Foi então que deparei com uma cena entre um tio e um sobrinho de tal forma poderosa no significado que ganhou para mim, que nem o pó do tempo que passou ousou turvar-ma na memória.

Para os que ainda não se deram conta noutros textos deste blogue, deixem-me esclarecê-los que nasci e cresci numa pequena cidade de província onde ainda hoje toda a gente se conhece e tudo o que foge à rotina e se revela de algum modo estranho aos olhos dos locais é logo tido como uma aberração. Nessa pequena cidade onde, à altura, os homens se informavam no único barbeiro existente no centro e os jornais diários chegavam de comboio no rápido das 11 da manhã, vivia um tipo, cerca de 30 anos, solitário, que, para quem o não conhecesse, era dado à sobranceria. Usava invariavelmente fato e gravata engomados a preceito – o que também não era lá muito comum à época – mas, apesar da ainda jovem idade, era já um aposentado da segurança social. Reformado por invalidez mental, convém referir.

O puto, o tal sobrinho, que não devia ser muito mais velho que eu ali mesmo ao seu lado, olhava com ar interessado para o jardim que ficava em frente do pequeno Hospital da Misericórdia. De repente, virou-se para o tio e disse-lhe com algum desdém ao ver passar o jovem reformado de apenas 30 anos:

- Tio, olha ali aquele senhor. Olha, olha, é o tolinho que passa todos os dias em frente à escola. Os miúdos da minha classe gozam todos com ele - e riu-se.

O tio, homem de aparente fina educação, chegou-se junto ao sobrinho, pôs-lhe a mão sobre o ombro e sem tirar os olhos da rua, embora com ar reprovador, disse-lhe com a solenidade na voz que lhe era conferida pela sabedoria ganha com os muitos anos já cumpridos na vida:

- Pois fazem mal, Pedro – assim se chamava o miúdo. – Primeiro, porque não se deve gozar com ninguém por muito que não entendamos o seu comportamento. Mas, sobretudo, porque tomaras tu um dia vir a ser aquilo que ele julga que é.

"Tomaras tu um dia vir a ser aquilo que ele julga que é!" Juro-vos, quantos mais os anos se passam mais admiração eu sinto pelo significado profundo do que aquele homem quis dizer ao sobrinho.


segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

O Soldado Ilibertino

[Female Nude, 1910, Egon Schiele]


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Fiz tropa em Lisboa, Calçada da Ajuda, e, posteriormente, em Évora, num local que fora uma estrebaria e é hoje um pólo universitário. Alistaram-me a contra gosto na Polícia do Exército que de ensinamentos colhidos apenas obtive o de fazer com perfeição os nós de gravata. Na pequena Évora fazíamos centenas de quilómetros numa só noite à procura de universitárias bonitas a quem pudéssemos mandar uns piropos. Invariavelmente, o troco vinha em forma de um esgar de desprezo e olhar fulminante que nos feria o orgulho. Mas noite após noite a rotina cumpria-se com uma religiosidade impetuosa e infalível.


O soldado Ilibertino era transmontano, de Chaves, e só ia a casa quando tinha folgas de cinco dias, no mínimo, já que, na altura, passava pelo menos dois dias inteiros dentro do comboio na viagem de ida e volta. Era trolha de profissão na vida civil e enfermeiro de especialidade na curta carreira militar. E devia ser um bom profissional, pois manejava a seringa com a destreza de quem usa uma colher de pedreiro. Para além disso, tinha um jeito incrível para enojar os que o ouviam com os pensamentos estúpidos e sórdidos que fazia questão de partilhar. Apesar de grande e desajeitado, era muito propenso à depressão. Na estação dos comboios enquanto esperava uma das muitas ligações para Chaves, tinha o costume de se sentar nos bancos onde já se encontravam as estudantes igualmente a caminho do fim-de-semana em casa dos pais. Proferia-lhes frases inócuas e desagradáveis sendo persistente na previsibilidade da abordagem ao sexo feminino obrigando as jovens a mudar de lugar para o evitar. Nesses momentos, o Ilibertino soltava um sorriso mais triste e gélido que a morte e deixava entrever a deformidade do seu carácter ao passar junto das mulheres que em silêncio o rejeitavam baptizando-as de forma bem audível a todos com o epíteto de “cona venenosa”. Depois refugiava-se no bar da estação queimando a alma com álcool e berrando sentir-se uma merda. No que ninguém alguma vez pretendeu contrariá-lo. E quando o comboio desaparecia ao longe numa curva para leste em direcção ao Barreiro, já o Ilibertino ressonava a sono solto despejado pelos outros militares nos bancos de madeira da automotora vermelha que trilhava os carris do Ramal de Évora.




sábado, 21 de Novembro de 2009

Filme: New York, I Love You





Amar em Nova Iorque


O amor é e será sempre a maior fonte de inspiração para poetas, escritores, músicos e… realizadores de cinema. «New York, I Love You», filme em exibição nas salas de cinema, é mais um exemplo dessa inevitável realidade. O amor promove a mais comovedora felicidade mas também pode tornar-se num sentimento de dolorosa vivência. E pode muito bem acontecer de forma imprevisível numa só noite, durante uma tarde, ou apenas em um dia que não se repetirá. Mas o amor também acontece por toda uma vida. E será chegado o momento, na velhice, em que o carinho e a companhia que os dois elementos do casal se oferecem são os elementos mais importantes. Estes serão afectos simples dentro de um sentimento gigante, mas, no entanto, são elementos fundamentais para quem os vive. O amor pode ainda ser brando, ou intenso, lancinante, angustiante, apenas satisfatório, afortunado, belo. E em todas estas imagens - de um amor efémero ou duradouro, de um amor simplesmente sonhado - do amor que se vive ficará para sempre a memória de quem o viveu.

«New York, I Love You» mostra-nos precisamente as várias faces do amor numa cidade repleta de povos, plena de gentes das mais diversas origens e culturas, de seres humanos que amam como quaisquer outros. Isto, embora coexistam entre si os mais diversos contrastes numa cidade que parece albergar o mundo. Realizado por vários nomes do cinema, entre os quais a estreante Natalie Portman que também protagoniza uma das histórias, o filme surge pela mão do produtor Emmanuel Bebihy, que se mudou da cidade luz para a cidade que não dorme, e vem na continuidade do êxito de «Paris Je t’Aime». E durante a pouco mais de hora e meia que a fita dura, vemos desfilar perante nós a alegria e a tristeza, a felicidade e a busca dela, a ansiedade e o descontentamento, a entrega e a procura. Observamos também como a hesitação acaba por arriscar impossibilitar o amor, e, quem não o vivenciou já, como a alegria anda de mãos dadas com a dor. Comodamente sentados na sala de cinema, somos levados a sentir alguma inquietude ao arriscarmos viver na pela as histórias dos diversos amantes. Imaginamos o que nos aconteceu no passado, como estamos a gerir o presente, mas também naquilo que poderá tornar-se o futuro dependendo das opções que tomarmos para ele. E ao racionalizarmos a questão do amor, estamos também a senti-lo. A sentir o amor mas também o filme. E o cinema, que nos proporciona momentos únicos de emotividade.

O filme homenageia o realizador Anthony Minghella, inesperadamente falecido já durante este ano. E quis o destino que uma das histórias mais tocantes das várias que vemos desfilar na tela, fosse precisamente aquela que Minghella deixou escrita. Num velho quarto de hotel, uma cantora lírica (Julie Christie) volta a Nova Iorque para recordar e, quiçá, exorcizar fantasmas do passado. É recebida por um criado aleijado (um extraordinário Shia LaBoeuf) que faz de tudo para a manter feliz e confortável orgulhoso de hóspede tão digna. Momentaneamente, as violetas tornam-se numa personagem do filme e a ambiência que se vive caracteriza-se por uma melancolia estranhamente suave. Entre uma taça de champanhe que comemora a felicidade do regresso ao hotel e uma brisa fresca que obriga ao fecho da janela do quarto, o drama acontece. Ou a memória dele. O resto é para descobrir no filme, mas diga-se que este segmento se designa de «Hotel Suite» e foi realizado por Shekhar Kapur, tendo ainda a participação do actor John Hurt. Durante o desenvolvimento da história, é quase impossível não deixar de sentir um arrepio na espinha. Entre a nostalgia de Isabelle (Julie Christie), os olhos tristes de Jacob (Shia LaBoeuf) e a resignação amargurada da personagem de John Hurt, suspeitamos que algures na vida das personagens o amor foi interrompido pela presença da morte. E, inevitavelmente, a tristeza apodera-se também do espectador.

Para finalizar, refira-se que o filme é constituído por uma matriz de narrativas. Mas o tema central, o amor, as relações amorosas, acaba por se unir nas diversas histórias ao local singular onde tudo acontece, a cidade de Nova Iorque. E nesta unidade de estilo, nesta recolha de vidas, decorre também parte importante da nossa. Porque é de pessoas que o filme fala. De pessoas como nós, de pessoas tão perto de nós. A não perder.










«New York, I Love You», de Jiang Wen, Mira Nair, Shunji Iwai, Yvan Attal, Natalie Portman, Brett Ratner, Allen Hughes, Shekhar Kapur, Fatih Akin, Joshua Marston, Randy Balsmeyer, com Bradley Cooper, Hayden Christensen, Andy Garcia, Rachel Bilson, Natalie Portman, Irrfan Khan, Orlando Bloom, Christina Ricci, Maggie Q, Ethan Hawke, Anton Yelchin, James Caan, Julie Christie, John Hurt, Shia LaBeouf, Chris Cooper, Robin Wright Penn, Eli Wallach e Cloris Leachman


Desafio: Da (im)Perfeição e Outros Contos







Voltam a pôr-me à prova. Antes através do blogue Gaja com G maiúsculo e agora é o blogue Gaja com G maiúsculo que me desafia a responder a algumas questões. Ainda para mais a dona do referido blogue acha esta casa perfeitinha. G., é bom saber que temos amigos, mas aceita desde já que ninguém vai acreditar em ti quando disseres que o Cartório Mental é perfeitinho.


Passemos à acção. A Bold estão os truques do desafio e nos textos que se seguem os meus trambolhões:




Mania: Tenho a mania que nasci sob uma estranha protecção, seja ela divina ou outra. Refiro-vos dois ou três exemplos da minha suspeita (ou mania): aos dois meses de idade baptizaram-me à pressa com receio que me fosse quase sem ter desfeito as malas e dito olá à vida; à pressa chamaram-me Joaquim, mas podia muito bem ter sido Olegário, Hermenegildo ou pior. Já tive um acidente de automóvel grave com um carro em contramão na auto-estrada e sobrevivi; mas o carro não. Recentemente caiu-me uma escada na cabeça, mas, felizmente, (a escada) não se danificou.


Melhor cheiro do mundo: É, sem dúvida, o cheiro a graxa de sapatos; aliás, pergunto-me por que razão o perfumista Jean-Baptiste Grenouille, descrito na obra «Das Parfum, die Geschichte eines Mörders», que significa em bom português, se queres um bom perfume apaixona-te por uma linda mulher, nunca o percebeu. E no meu dia-a-dia já não passo sem uma boa snifadela de manhã e outra ao deitar; começo com o cinzento antracite e termino no preto metalizado.

Se o dinheiro não fosse problema: Seria proprietário de uma casa sobre uma falésia, de uma outra na encosta de uma serra virada para uma floresta de sequóias e residiria num apartamento faustoso na zona da Praça do Marquês de Saldanha, em Lisboa, bem perto das salas de cinema Medeia (sem pipocas) e das confortáveis UCI do El Corte Inglés (caso fosse ao cinema acompanhado de alguém que goste de pipocas, afinal não sou um fundamentalista e a qualidade da companhia determina os obstáculos a ultrapassar). Tornar-me-ia, enfim, um cidadão do mundo de corpo inteiro fazendo de cada aeroporto a minha garagem, de cada hotel a minha casa, de cada restaurante a minha sala de jantar e de cada rua, avenida, praça, museu ou outro qualquer ponto de interesse o itinerário para os meus dias fora de Portugal. Finalmente, e já não é pouco mas lembrem-se que de repente me fizeram milionário e o dinheiro assim o permite, dedicaria grande parte do meu tempo à escrita; talvez assim aprendesse definitivamente a escrever.

Habilidade doméstica: Esta é uma resposta complicada porque são tantas as minhas habilidades domésticas que seria fastidioso descrevê-las aqui a todas. Deixo-vos algumas: fechar a porta da rua, cá em casa, com a chave do lado de dentro, abrir o alçapão do sótão com a minha cabeça a servir de amortecimento para as escadas de recolher e, apesar de já ter acontecido há alguns anos também conta, tentar instalar um esquentador e furar o tubo da água por dentro da parede.

O que não gosto de fazer em casa: Esta é fácil: instalar esquentadores, abrir escadas de recolher e fechar a porta da rua deixando as chaves do lado de dentro.

Frase preferida: Pertence ao grande filósofo Nicolai Ostrovski e foi extraída do seu livro «Assim Foi Temperado o Aço»: “Mais vale consumir-se a trabalhar um ano do que vegetar cinco anos numa cama de hospital.” Nem mais, Nicolai, é graças a este teu esplendoroso e estimulante pensamento que todos os dias arranjo forças para ir trabalhar. Estejas tu onde estiveres, obrigado, Nicolai.

Passeio para o corpo: À noite, depois de me deitar, gosto de passear o corpo pela cama. De lado, de costas, de barriga para cima, meio ou inteiramente torcido sobre a almofada; e é sempre um tormento quando o despertador toca e tão delicioso passeio termina. Especialmente quando, durante o passeio, tem lugar o sonho.

Passeio para alma: Aqui não serei muito original, temo. A minha alma navega ao som das músicas do canal Fashion Tv enquanto modelos femininos vão dando a conhecer as tendências da moda para o verão do ano seguinte, muito especialmente no segmento ‘lingerie’. Mas, claro, leio muito os livros do grande filósofo Nicolai Ostrovski, especialmente a obra «Assim Foi Temperado o Aço», e ando a deliciar-me com dois manuais de instruções: «Alçapão com Escadas Recolhíveis – Como Usar» e «Monte Você Mesmo o seu Esquentador a Gás», de autores desconhecidos.

O que me irrita: Encontrar carros em contramão na Auto-estrada, levar com escadas recolhíveis na cabeça e esquecer-me das chaves dentro de casa depois de fechar a porta da rua.

Frases ou palavras que uso mais: Atenção à bolinha vermelha: "Cacete, já levei com uma escada na cabeça", "Merda, já me esqueci outra vez das chaves dentro de casa" e "Ena pá, que chatice, aquele pobre senhor enganou-se e entrou na auto-estrada em sentido contrário; ora, foda-se!"

Palavrão mais usado: Não, a sério, eu não digo palavrões. Nem os escrevo, acho uma ordinarice!


Vou aos arames quando: Não sei se já o escrevi aqui, mas quando apanho com carros em contramão na auto-estrada, levo com escadas de recolher na cabeça e me esqueço das chaves dentro de casa depois de fechar a porta da rua.


Talento oculto : De tão bem escondido que está, ainda o não descobri.

Queria ter nascido a saber: …que me iam chamar Joaquim. É uma crueldade que não me tivessem avisado antes de ter decidido nascer. Ao descobri-lo ainda fiz uma alegada tentativa de suicídio para chamar a atenção. Tinha então apenas dois meses de idade, mas de nada valeu e só piorou as coisas: baptizaram-me à pressa.



Obrigado, G.


Noites de Lisboa




O


[esta singular ocorrência foi-me contada pelo próprio J.; que Deus o tenha e me perdoe por aqui a relatar]


O J. era homem entrado cerca de trinta anos na idade mais que eu. Era uma espécie de aristocrata deposto, um fidalgo que nos idos anos 60 – à altura a dar os primeiros passos na idade adulta – fez da noite de Lisboa as suas cortes. Vivia dividido entre as mais notáveis virtudes e alguns defeitos pouco dignos. Uma noite – contou ele – saíra com alguns amigos e, noitada já longa e turvada pelo álcool e pela tempestade que se abatia sobre a cidade, foi acompanhados de algumas senhoras de duvidosa reputação recrutadas algures num bar do Cais do Sodré que chegaram junto à entrada de um restaurante que não cerrava portas até ser manhã clara.

Bem bebidos, tropeçando a sul, empurrando a oeste, esbarrando aqui e ali, olhavam ameaçadores para a porta de entrada no momento em que encalharam nos olhos esbugalhados do desaustinado porteiro. Este que não se mostrava vulnerável à entrada do ruidoso grupo no estabelecimento. Até que um dos atordoados amigos, fingindo-se conterrâneo do segurança e imitando o duro sotaque do frio nortenho, resolveu a questão com um par de notas no bolso daquele. Comprado mas não convencido, o homem – de seu nome António – lá abriu passagem. Mas, impondo regras, bramiu entre dentes:

- Primeiro as senhoras, primeiro as senhoras! E vamos lá a ter calma, uma senhora de cada vez.

Ao ouvir as palavras do zeloso porteiro, o bom do J., atónito com tanta delicadeza, não se conteve e respingou de imediato. E, posso bem imaginar, como era seu costume terá criticado o outro em tom impassível.

- Ó António, então, pá? Tu regulas? Quais senhoras qual quê? Deixa-te disso, homem, a senhora está no céu, estas são putas!...



sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

My Blueberry Nights – O Sabor do Amor

[reposição]


Postais da América

Para quem tenha visto «Chungking Express» (1994) mas, sobretudo, «In the Mood for Love» (2000) reconhece imediatamente em «My Blueberry Nights – O Sabor do Amor» as sedutoras fragrâncias do cinema do chinês Wong Kar-Wai. Pode então dizer-se que este novo filme de Kar-Wai é cinema de autor? Pode, mas na minha opinião não deve. Fazê-lo seria diminuir a dimensão dramática do filme que importou para o cinema a cantora jazz Norah Jones. E em boa hora o fez.

Se lerem em algum lado que «My Blueberry Nights» é um filme imperfeito, acreditem. Se vos disserem que a vida não é perfeita, acreditem também. Se alguém vos confidenciar que cinema é muitas vezes o retrato fiel da vida, acreditem ainda. Porque é precisamente da vida que falamos no filme em que partindo de um bar em Nova Iorque onde desabafa intimidades com Jeremy (Jude Law), Elisabeth (Norah Jones) resolve reinventar-se. Como mulher e como pessoa. E parte sem destino determinado e tempo definido. Fá-lo ao jeito de confissão para Jeremy mas redireccionando para os espectadores do cinema de Wong Kar-Wai singulares postais da América. Singulares porque ilustram os locais por onde vai passando através das gentes que em nome da sobrevivência se enganam a si mesmas procurando mostrar uma adaptação que estão longe de alcançar a um mundo que em boa verdade lhes é adverso (personagem de Natalie Portman) ou fugindo do amor que desejam mas cuja força são incapazes de suster (personagem de Rachel Weisz).

Pela sua impossibilidade, mais uma vez a realização de Wong Kar-Wai filma a dimensão trágica do amor. Neste caso, do amor entre um homem e uma mulher mas também do amor filial de uma filha por um pai. E enquanto comboios cruzam a noite e os reflexos das luzes no escuro nos embalam para um universo de encanto e tentação, a banda sonora da responsabilidade de Ry Cooder permite-nos o toque final no arrebatamento pelo filme.

Pelo magnetismo da sua interpretação Norah Jones tem um início de carreira auspicioso, Rachel Weisz apresenta-se na tela mais bela que nunca, David Strathairn compõe um polícia amargurado pela infelicidade no amor, Natalie Portman revela um lado frenético e intranquilo que não se lhe conhecia na enganosa segurança da sua personagem e Jude Law arranca uma prestação irrepreensível. Sem excessos, sem se colocar em bicos de pés, ele está lá e é peça fulcral no desenlace do nó que Kar-wai concebeu. Ele que aguarda tranquilamente pelo amor na prolongada espera por Elisabeth.

E é neste itinerário percorrido por almas à deriva, neste plano geral de vários postais ilustrados, que se fez um quadro único em que Wong Kar-Wai reproduz o sabor do amor. E se ouvirem dizer que «My Blueberry Nights» é isto ou aquilo, não acreditem. Não vão por aí, sigam em alternativa o caminho de uma sala de cinema e assistam ao filme, confiram por vós. No fim, corram a comer uma tarte de mirtilo. Pode ser o vosso dia. Quem sabe alguém decide limpar-vos os lábios de um modo muito especial!?


My Blueberry Nights – O Sabor do Amor, de Wong Kar-Wai, com Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz e Natalie Portman

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

O sabor do amor






Hoje, ao início da tarde, fui ao dentista. Não que goste de ter a boca aberta durante uma eternidade de tempo a querer engolir em seco, sem poder fazê-lo, enquanto alguém mexe e remexe lá dentro introduzindo-me entre os maxilares quase toda a logística de um batalhão de sapadores bombeiros, mangueira incluída. Mas ultimamente a minha sensibilidade literária tem-se transferido para os dentes e a dor obrigou-me a ter de suportar as brocas e uma posição desconfortável numa cadeira estranha. Enquanto esperava pela minha vez observei dois miúdos a conversarem, sorrindo um para o outro, sem sequer perceberem como os minutos passavam e se tornavam cada vez mais longos. Ele e ela davam por vezes as mãos. Muito carinhosamente, percebia-se.

Esta imagem fez-me recordar a primeira vez que percebi que estava apaixonado. Pela Margarida. Tínhamos não mais de doze anos cada um e o professor de português faltara e não tivemos aula. Sentados num banco junto ao campo de futebol da escola, conversámos durante quase duas horas, conversámos somente, mas conversámos muito. Os onze e doze anos são tempos difíceis na relação entre rapazes e raparigas. E eu não devia sentar-me sozinho a conversar com uma miúda, pois corria o risco de ser excluído do grupo dos mais populares. Mas naquele dia não quis saber e nem sequer senti vergonha. Lembro-mo bem de lhe ter tocado nas mãos tal como o fizera o casal de adolescentes na sala de espera do consultório. E depois nas faces. Fui assaltado por uma sensação tão boa que quis abraçá-la. Aí sim, tive vergonha de lho pedir. Mas quando nos despedimos ela sorriu e deu-me um beijo no rosto que quase me fez cair do banco onde estava sentado há horas. E depois ela foi-se em direcção a casa e eu fiquei a olhá-la com um sorriso tolo. Os cabelos castanhos da Margarida esvoaçavam-lhe sobre os ombros, impelidos pelo vento, e a saia que vestia fazia pequenas ondas na zona dos joelhos. Naquela noite dormi pouco. E não me recordo de ter conseguido abandonar o tal sorriso tolo que me ficara a baloiçar nos lábios desde que a Margarida se fora. Pela primeira vez na vida descobrira o sabor do amor.


terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Não vá ao Banco, o Banco desloca-se até si!




Vá-se lá perceber uma coisa destas. Anda aqui um tipo há anos a dizer mal dos bancos, dos banqueiros e das mãezinhas deles e de repente leva nas trombas com um aviso de protecção do que é nosso que sentimos rasgar-nos a carne qual balázio fervente. Pois é, ainda olhei para o chão podia estar a escorregar numa velha lata de conservas, mas não. O Bankolombya, da Colômbia, mandou-me um e-mail a avisar que por motivos de tentativa de intrusão abusiva e de segurança reactiva me tinham bloqueado os acessos virtuais à minha conta naquela instituição. Imediatamente respondi aos senhores agradecendo os extremosos cuidados e tanta gentileza. E não é que só depois de ter clicado no campo do e-mail onde diz “enviar” é que me lembrei que não tinha conta nenhuma em meu nome ou noutro nome qualquer no Bankolombya? Pobres senhores, a esta hora devem estar aflitos com a confusão. Provavelmente deveria ter clicado no “link” que eles me dispuseram e fornecido as informações pessoais e financeiras que me pediam amavelmente para melhorar o sistema!

O cinema revisitado: Fala com Ela




A sala escurece e ao fundo o ecrã ilumina-se. O filme inicia-se com a imagem de uma sala de espectáculos onde se exibe Café Müller, com coreografia de Pina Baush. Disperso algures pela plateia, um homem chora olhando os bailarinos em comovente interpretação. Não muito longe de si, um outro homem, este ligeiramente mais jovem, sustem o impulso de lhe falar, de lhe dizer o quanto o espectáculo também mexe consigo. Por esta altura, já os espectadores, não os de Café Müller mas sim os de «Fala com Ela», o filme de Pedro Almodóvar, se terão dado conta que estas são uma narrativa e uma realização em registo algo diferente do habitual no cineasta espanhol. Mas quando o filme terminar, novamente ao ritmo de Pina Baush e da sua muito cabo-verdiana Masurca Fogo, ficará a convicção emocionada de que Pedro Almodóvar amadureceu, cresceu como realizador.

Em todo o filme o que se revela de mais tocante é a afectividade que emana das diversas personagens, elas que agitam em nós a exteriorização das suas emoções. Para lá deste importante pormenor, existem igualmente duas diferenças fundamentais relativamente à anterior filmografia do realizador: as mulheres, habituais figuras de charneira nas suas histórias, passam a um papel de tácito protagonismo dando lugar de relevo aos homens; outra das diferenças, é a não introdução da vertente surrealista tão do agrado de Almodóvar. Isto, ainda que em «Fala com Ela» se possa continuar a falar de estranheza

O enredo aproveita muito da personagem de Benigno, um jovem cuja vivência se resume a cuidar das duas mulheres da sua vida: a mãe, entretanto falecida, e Alicia a bela jovem que um dia descobrira desde a janela da sua casa. Alicia dançava numa academia do lado oposto ao seu na rua onde vivia, e ele, Benigno, rendera-se à forma como esta irrompia na sala pisando suavemente o soalho. As dramáticas circunstancias da vida fariam com que Alicia um dia entrasse num coma dado como irreversível e Benigno fosse o seu enfermeiro. Ela era a bela adormecida e ele o príncipe encantado. Um príncipe pleno de amor por ela desejando acordá-la do seu sonho profundo. Entretanto, Benigno conheceria Marco na clínica, um argentino errante pelo mundo, escritor e jornalista, que fazia companhia à sua namorada, também ela em coma depois de investida pela bravura de um toiro numa tarde quente, seca e inglória em que seria apresentada de forma cruel aos riscos da sua profissão de toureira. Também Lydia fora bailarina por momentos. Mas Lydia dançara ao ritmo áspero dos cornos de um toiro e quedara prostrada no solo empoeirado da praça então tingido do vermelho do seu sangue. Nas bancadas, o público aficionado berrava o seu desespero e abafava os aplausos nervosos.


«Fala com Ela» acaba por transportar Pedro Almodóvar para um outro estágio de credibilidade artística dentro do panorama cinematográfico mundial. Apesar do Oscar que lhe fora atribuído por «Tudo Sobre a Minha Mãe» (1999), o realizador não se livrava de um certo estatuto de autor demasiado preso a excentricidades e devaneios surrealistas nas suas anteriores obras. Neste filme, o realizador não só pensa o seu cinema como o seu filme pensa questões pertinentes da nossa sociedade. De certo modo, pode dizer-se que existe no filme uma evidente modéstia de Almodóvar já que este é um cinema sincero em que o realizador deseja uma efectiva partilha com o espectador e não apenas chocá-lo. Mesmo o humor de que se socorre neste filme, fundamental para ponderar a comunicabilidade/incomunicabilidade nas relações sentimentais dos nossos dias, é um humor simpático, quase carinhoso, nada agressivo. Pedro Almodóvar esculpiu-se como realizador de cinema, pode dizer-se. Atingiu em «Fala com Ela» a liberdade criativa daqueles que já não necessitam chocar com o camuflado e simples objectivo de captar atenções sobre si mesmos.

Nesta obra, que aborda a par da solidão questões como a paixão, o ciúme e o desejo para acabar por se centrar na amizade entre dois homens, há ainda a realçar a irrepreensível prestação dos actores. Sem grandes artifícios visuais, nada como o desencanto de um olhar, a ternura de um gesto, a amargura de uma lágrima, a nostalgia de uma postura. E nisso todos os actores foram exímios, o que só prova a famosa exigência com que Almodóvar obriga os seus actores a trabalharem os papéis que lhes cabem. Mas Almodóvar acaba por surpreender até em questões como gosto e identidade. Momento altíssimo do filme é a interpretação de uma versão de Cucurrucucú Paloma pelo brasileiro Caetano Veloso. Enquanto Caetano Veloso (en)canta e Marco se encosta a um cercado virado para olivais a perder de vista, nós vamo-nos emocionando com uma ambiência que nos é tão próxima. Se adicionarmos a isto a referência às touradas, ainda que muitos não as aprovem, elas que são parte fulcral da identidade cultural espanhola, «Fala com Ela» ganha o estatuto do mais exportável dos filmes espanhóis. E, para mim, o melhor Almodóvar de sempre num filme generoso e comovente.


Resposta ao Desafio - 5 Revelações







Do muito agradável blogue Gaja com G maiúsculo, a dona da casa lançou-me um desafio assaz interessante mas que eu não vou poder cumprir na totalidade, como lá mais para o fundo explicarei. Ainda assim, vou passar a enunciar as regras:

1 – Seguir as regras (bem, como não explicita que as regras são para seguir na íntegra eu vou fingir que há uma que se pode ignorar e, como referi, cumprir na mesma o desafio)

2 – Colocar o selo indicativo não só do desafio como de todos os participantes no mesmo (abro aqui um parêntesis para enviar um grande abraço ao Nicholas Sparks pois o selo parece saído de um dos seus livros)

3 – Completar as frases cujo início é o seguinte:

a) Eu já…
b) Eu nunca…
c) Eu sei…
d) Eu quero…
e) Eu sonho…


4 – Depois de completar as frases (a meu bel-prazer) indicar 5 novos blogues para dar sequência ao desafio (esta regra, pedindo mil perdões à G. e aos promotores do desafio, é que eu não vou poder cumprir; não porque não queira mas porque não conheço suficientemente os meus colegas da blogosfera para que me permita lançar-lhes um desafio do género)


Aqui segue então, suponho que sem revelações bombásticas, o meu contributo para o desafio que me foi proposto:


a) Eu já cheguei a ver 153 filmes nas salas de cinema num só ano; foi em 2003;
b) Eu nunca pensei viver para além dos 30 anos; sempre tive a sensação que o meu tempo neste mundo seria curto apesar de ser uma pessoa saudável;
c) Eu sei que não é possível agradar a todos, mas sempre me custou perceber que sou o género de pessoa que de quando em vez desperta rancores sem que tenha feito algo por isso;
d) Eu quero conseguir errar cada vez menos nas escolhas que faço no meu dia-a-dia nas mais variadas vertentes da vida;
e) Eu sonho poder um dia ser totalmente livre; isto é, não ter que trabalhar para pagar contas e poder ter tempo para fazer tudo aquilo que me dá prazer.


Obrigado, G.



domingo, 15 de Novembro de 2009

Uma história triste, uma história de assombrar

[Bedroom Scene, 2003 - Eric Fischl]



Quando tomei conhecimento da história trágica de Maria R., mantive-me durante longos minutos em silêncio e não pude deixar de olhar inquieto o semblante marcado por uma vida dura e demasiado sofrida daquela pobre mulher. Naquele momento em que a visei, Maria percorria com as mãos o chão enegrecido da oficina, às apalpadelas, procurando encontrar algo essencial para estancar a pressão de um pneu infinitamente maior que o seu corpo franzino. Órfã de pai quando era ainda bebé, desde muito nova foi a medo que se habituou a enfrentar a lassidão dos dias. Violentada sexualmente na adolescência por dois padrastos que se sucederam na vinolenta e desastrada vida da mãe, assistiu ainda à morte desta quando completamente bêbeda falhou a borda da mesa onde tencionava poisar a cabeça confusa e atormentada. A cabeça, essa, rachou-a fatalmente no chão duro da velha cozinha da casa onde habitavam por favor. Maria tinha então dezasseis anos.

Depois da morte da mãe, Maria ainda tentou pôr termo à vida sentindo-se uma coisa inútil e malfazeja. Mas os vizinhos não lho permitiram e acabou a servir em casa de uma família abastada de Lisboa. Anos mais tarde, traíram-na as sensações e apaixonou-se por quem dela apenas mais não queria que os prazeres da carne. Voltou para a sua terra de sempre com um filho nos braços e foi ali mesmo, naquela oficina, que arranjara trabalho para ter com que sobreviver. Ela e o seu menino, como era hábito referir-se-lhe, que por bondade do patrão a acompanhava para a oficina e onde todos o acarinhavam.

Olhei de novo aquela mulher. Observei que tinha o rosto transpirado e os cabelos de onde escorriam gotas de suor colavam-se-lhe na testa. Quando se aproximou do filho, um bebé lindo e muito bem disposto, debruçou-se sobre o carrinho onde este brincava com uma roca e encostou o seu rosto avermelhado da exposição ao Sol à cara de pele branca da criança. Nela depositou um beijo caloroso. Foi naquele momento que percebi a generosidade daquele ser humano de quem a sorte nunca conhecera a existência. Quando Maria beijou o filho, beijava também o homem que lho fizera e a abandonara. Continuava apaixonada. Isto apesar da sua esperança no dia seguinte ser igual à do dia anterior: nenhuma. Restava-lhe viver apenas para si e para o filho que, ela sim, gerara por amor.


Solução do desafio Onde está o cão


[Rose McGowan]




E pronto, aqui se desfaz a dúvida. Embora um pouco escondido, aqui está o cão.







[Etiquetas: regresso à sanidade mental ou vamos lá pôr um ponto de ordem nisto]

Desafio: onde está o cão?

[Dita von Teese]




Dá-se alvíssaras aos mais perspicazes que consigam descobrir onde está o cão nesta foto.




[Etiqueta: paralisia cerebral ou vamos lá aligeirar isto]

sábado, 14 de Novembro de 2009

Sábado, 14 - aula de RPM: Eastwood, o velho engenheiro e «Gran Torino»





A conversa fortuita e breve que mantive com um homem de idade avançada no bar do HP de Algés, um homem que vive na espera que os dias passem até que veja chegada a sua hora, transportou-me de imediato para o universo cinematográfico de Clint Eastwood, o actor e o realizador. Mais precisamente para «Gran Torino», esse extraordinário filme de 2008. Isto porque a personagem central da trama, Walt Kowalski (Eastwood), é igualmente um homem só que vê a sua mulher morrer enquanto os seus amigos ou morreram também ou se mudaram para outros locais da cidade. Entretanto, vê o seu bairro habitado na sua esmagadora maioria pelo povo Hmong, uma etnia oriunda do sudeste asiático.

Como grande realizador de cinema que é, em «Gran Torino» Eastwood consegue fazer a ponte entre os conflitos interiores de um homem de alma atormentada e uma sociedade doente. Através de uma realização segura e de uma interpretação verdadeiramente antológica, Eastwood e o seu filme elevam-se a uma categoria superior onde coexistem o drama mais intenso e profundo com cenas de sentido humor.

Entre estes dois homens, o velho engenheiro português antigo funcionário de uma empresa de risco no norte da Europa e o americano veterano da guerra da Coreia, existem vários elementos em comum. Ambos sofrem da nostalgia de épocas diferentes daquela que vivem no presente e, de igual modo, ambos se encontram num impasse vivencial em que a perda das mulheres e dos amigos mais próximos os obriga a uma espera paciente por algo que não seria suposto desejar-se: a própria morte. Desgraçadamente, tal como sucede em «Gran Torino», a agravar as coisas é comum que os filhos destes homens se tornem em verdadeiros estranhos e sigam as suas vidas em clara rotura com os pais.

O filme de Eastwood é perfeito e absolutamente imperdível na história de um homem que encontra a redenção de um modo tão altruísta quanto dramático. Mas ainda tocado pelo encontro desta tarde no bar de Algés do HP, sou obrigado a concluir que a perfeição do filme do velho realizador norte-americano só é possível em contraste com a eterna imperfeição do mundo em que vivemos e naquilo em que o transformámos.


Sábado, 14 – aula de RPM: o homem do bar

[Excursion into philosophy,1959 - Edward Hopper]



Pouco passava do meio dia quando me sentei no bar do Holmes Place de Algés. Aproveitei para comer uma queijada que tencionava empurrar para baixo com a ajuda de um sumo natural de ananás. Enquanto isso, entretinha-me a olhar um grupo de miúdos a ter uma aula de natação dado que a piscina do clube está dividida do bar apenas por uma parede envidraçada. Estava completamente nas nuvens quando uma voz rouca rompe o silêncio e alguém pede licença para se sentar na minha mesa.

Já tinha visto por ali aquele homem; um homem velho de mais de setenta anos mas com uma pose imponente própria dos oficiais das tropas especiais. Sentou-se ao meu lado, rosto endurecido a enfrentar a água da piscina. Costumo vê-lo por aqui, diz-me apanhando-me completamente desprevenido. Sim, habitualmente venho cá treinar, respondi pouco convicto de algo que até era inteiramente indesmentível. Eu também, retorquiu o homem continuando a falar sem me dar espaço para dizer o que quer que fosse. Desde que a minha mulher morreu, vai fazer para Janeiro três anos, que esta tem sido a minha terapia para superar a falta que ela me faz. Olhei-o mostrando verdadeiro interesse no que dizia. Sabe, a vida muda sem que demos por ela, continuou.

Entretanto, três rapazes numa mesa ao lado riram alto a algo que um deles terá dito e o homem esperou que o silêncio voltasse, pondo-se à escuta. Assim que sentiu que conseguia fazer-se ouvir de novo, continuou. Repare o amigo… – ao referir-me como seu amigo perscrutou se se notava algum gesto de reprovação em mim; percebendo que não, acabou a frase que começara. – Quase toda a minha vida fui engenheiro numa empresa de risco nos mares do norte. Mas essa experiência de vida dura não me preparou para o desespero de ficarmos sós na vida. Nisto, quase que num impulso, despediu-se educadamente, levantou-se da mesa e dirigiu-se para a rua. Mas não sem antes extrair de si uma nota triste que me obrigou a dois compassos de dança interior na melancolia com que as suas palavras me soaram. Acabamos por ganhar apenas uma vantagem com a solidão. É que não temos ninguém para nos limitar as lágrimas. E assim se foi. Eu é que já não consegui terminar o sumo.


Sábado, 14 – aula de RPM: antes, durante e logo após




O dia acordou molhado, cinzento, de ruas ensebadas pela terra que a água da chuva não conseguiu lavar do alcatrão. Provavelmente um dia bom para ficar a preguiçar na cama e manter a inactividade até ao anoitecer. Apesar disso, levantei-me cedo e corri para o ginásio onde fiz algumas dezenas de quilómetros em apenas um metro e picos quadrado. Ao longo de cinquenta minutos fiz das tripas coração, rebusquei em mim o campeão adormecido e fiz boa figura acabando a prova de RPM bem inserido no meio do pelotão. Quando tirei a toalha branca que trajava à cintura e deixei que a água morna do chuveiro corresse sobre o meu corpo dorido, desculpem mas não pude deixar de me sentir impregnado de uma sensação de vida quente e límpida.


sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Há um ano como hoje, o Porto

[Torre dos Clérigos - Armando Aguiar]




Porto grave e sério


Caía uma chuva miudinha sobre o Porto, esta noite.

Desde o hotel, com acento francês, em Gaia, conduzi o meu carro e deixei que deslizasse lentamente até quase metade da Boavista. Na Arrábida olhara a foz à minha esquerda, o beijo das águas do rio na boca do mar; lá ao fundo, à direita, altaneira, a Torre dos Clérigos, mais abaixo o Palácio de Cristal, a ribeira junto ao curso de água, e, centenária, férrea, ao longe a perder de vista, a Ponte de D. Luís, o casario em cada ponta dos dois tabuleiros. Distraído na contemplação de ti, Porto, ocupei duas faixas do pavimento enegrecido. Buzinaram-me. Uma, duas, três vezes, deixei de as contar, teriam sido quatro? Não, talvez fossem apenas três.

Na Boavista jantei no restaurante Cufra.

Foi acomodado nos seus bancos compridos, assentos vermelhos cor de vinho, que confortei o estômago e passeei o olhar pelas gentes em redor. Em redor vi gentes da gente do Porto, visitantes, convidados da invicta cidade, os funcionários trajados de azul, vi mulheres que entraram, mulheres que saíram, homens que saíram, homens que entraram, casais divertidos, silêncios escondidos, olhares retraídos, sorrisos francos, sorrisos de ocasião, copos cheios, uma mão na mão, copos de cerveja, bocas que mastigavam, copos vazios, francesinhas em vaivém incessante, ruídos abafados, uma televisão ligada. No futebol.

Aprendi a amar o Porto, a senti-lo de modo especial. Há algo de poético nas suas ruelas estreitas, nas calçadas gastas pelo pisar incessante de sapatos de saltos altos, rasos, meio salto, saltos gastos, novos, a luzir, cansados, desbotados. O Porto é uma cidade com história e de muitas histórias por contar. O Porto é grave e sério, como alguém escreveu e outro cantou. A cidade guarda no seu âmago o fogo vivo da excitação dos amantes das noites claras, bem regadas, chovia ontem, bebidas, noites animadas, era uma chuva miudinha a que caía; o Porto que vive com sofreguidão a correria do dia. Nas ruelas de luz bela e sombria, cantemo-lo. É uma cidade com alma, uma urbe misteriosa, sedutora de tão feliz na sua aparência triste e pesada. Porto empedernido, Porto de igrejas, museus e do vinho nas caves de Gaia.

No regresso ao outro lado, a neblina, a cidade a ajeitar-se nos lençóis dos seus residentes e hóspedes.

Já em pleno hotel, uma recepcionista que sorri pela enésima vez e mostra um sorriso dedicado, mas que - fiquei triste por ela - mais parecia retirado de um catálogo de vendas. Sim, fiquei triste por ela. Um elevador em queixume vem abaixo, vai acima, andar 7, piso da garagem, andar 12, restaurante buffet, andar 7 de novo, lobby. Carrego o botão, leva-me do zero ao 14, agradeço-lhe, digo obrigado, a resposta surge num clique metálico de fechar de portas. No quarto ignoro a TV que me dá as boas vindas pelo meu nome próprio escrito em letra Bookman Old Style, deito-me, falo longamente ao telefone, encosto a cabeça na almofada, sinto o vazio, sinto também que adormeço.

Que nunca caiam as pontes entre nós. Boa noite. Adormeci.



quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Robert Enke, morte por suicídio






Recebi a chocante notícia esta manhã ao entrar no automóvel e ligar maquinalmente o rádio como faço todos os dias. «Morreu o antigo guarda-redes do Benfica, o alemão Robert Enke», dizia o locutor com voz grave. Aparentemente de suicídio, aos 32 anos de idade. Não vou escrever muito já que não sinto essa necessidade para exprimir o meu pesar por tão trágico desenlace para a vida de um homem que aparentemente tinha tudo e afinal, uma grave depressão, segundo confirma a sua mulher, levou a que o mundo soubesse da pior forma que Enke não tinha mais nada que o fizesse querer viver. E escrevo apenas para reafirmar o óbvio, aquilo que todos nós já sabemos. Quantas vezes amigos nossos, colegas de trabalho, simples conhecidos, pessoas que são ou nos foram muito chegadas não sofrem de males da alma, nos pedem auxílio num silêncio ensurdecedor, pedido esse que voluntariamente ignoramos virando as costas com uma frieza cruel a quem bastaria um simples gesto para ajudar a devolver alguma esperança? Desculpem a simplicidade destas palavras, mas nestes momentos gostaria muito de ter a capacidade de poder desligar o complicómetro da vida.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Esmeralda




[The Travel of Romance, 1994 - Eric Fischl]



Esmeralda era uma rapariga dos diabos, rija como o aço. Logo pela madrugada comia uma ou duas sandes de carapaus fritos com as espinhas a fazer lembrar arame farpado que a lida na quinta onde dava serventia assim o exigia. E embora fosse evidente que não arrebanhava o gado todo, era mulher de colhões d’aço, tal como o referia o Padre Zé Bento. Casou por três vezes mas todos os maridos sucumbiram aos enxertos de porrada que lhes dava deixando-os a queixarem-se da coluna e a passarem mais tempo nas enfermarias com as mazelas que a moçoila lhe provocava que a aquecerem-lhe os pés nas noites geladas das cercanias de Mirandela. E quem ousasse meter-se com ela recebia logo um generoso directo nos queixos que levava até os mais obstinados a cuspirem dois ou três dentes das bocas sebentas. Bocas que não mais se abriam para a importunar. Morreu já com uma boa idade e diz quem a viu no leito de morte que desceu à terra de punhos fechados já precavida para o que desse e viesse quando entrasse às portas do céu. Ou do inferno, que a Esmeralda não era de finezas e aceitava de bom grado e a troco de umas boas coças o que o destino lhe reservava.


segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Liberdade de expressão



Cinema Choque


O melhor do cinema europeu sempre esteve, e estará, na forma como intervém na sociedade sem no entanto, no meu entender, poder ser redutora e objectivamente apelidado de um cinema de causas. Não raras são as vezes em que um cinema com estes sintomas de subversão da realidade e dramatização quase caricatural dos factos no propósito de deixar aos outros margem para escolha de uma verdade, se torna de tal modo exigente que o que julgamos ver está muito longe daquilo que nos é dado ver.

Em «O Juiz e o Assassino» (1976) um desaire amoroso vai fazer de um antigo sargento de infantaria um ser perdido, de mentalidade simplória, que vagabundeia entre aldeias violando pastores e pastoras. Será julgado e condenado e o próprio Juiz que lhe dita a sentença irá sodomizar a sua companheira. Claro que o realizador francês Bernand Tavernier seguiu de perto um caso verídico ocorrido nos finais do Séc. XIX. Mas executa de tal forma uma manipulação de dados à sua maneira que é notório o seu menor interesse nos factos em si em detrimento da matéria que gerará a discussão. E mesmo que esta matéria choque os espíritos mais sensíveis é imperioso que os pensadores das imagens continuem a executar o seu trabalho

domingo, 8 de Novembro de 2009

O sorriso como o Sol

[A actriz Rachel Weisz]




«O seu sorriso é o Sol que ilumina os dias de homens arruinados como eu.»


The Curator (Robbie Coltrane) para Penelope (Rachel Weisz), In The Brothers Bloom, o filme, de Rian Johnson

Filme: Os Irmãos Bloom





O admirável sonho dos Bloom



Neste mundo admirável mas por vezes tão esquivo e difícil, o maior privilégio a que alguém poderá aceder será o de viver a sua vida consoante a sonhou. E é precisamente desse sonho que nos fala o realizador Rian Johnson no filme que conta a história dos Bloom, dois irmãos órfãos que desde cedo tiveram que fazer pela vida. Johnson que em 2005 surpreendeu no Festival de Cinema de Sundance com «Brick». Bloom (Adrien Brody) é o mais sensível dos dois irmãos e aquele que verdadeiramente protagoniza as histórias escritas por Stephen (Mark Ruffalo), um escritor romântico feito argumentista de contos do vigário para os quais se socorre da inspiração de clássicos como Fiodor Dostoievski.

Apesar disso, a linha ténue entre realidade e ficção não é tão delicada assim e exerce sobre quem a segue uma pressão que pode tornar-se psicologicamente insustentável. É o que acontece a Bloom (Brody) que ensaia várias tentativas para fugir do mundo de fantasia e vigarice criado pelo irmão. Os dois decidem então executar um último golpe e para o fazer escolhem como vítima Penelope (a belíssima Rachel Weisz), uma herdeira solitária e tímida cujo maior hobby consiste em espatifar carros de alta cilindrada. Penelope é uma mulher excêntrica mas incrivelmente sedutora. Vem-se com o som das trovoadas, afoga-se em milhões mas sonha tornar-se contrabandista para ganhar tostões, e, claro, deste modo corre o grande risco de estragar os planos de Stephen (Ruffalo). Isto porque o sensível Bloom (Brody) não deixará de se apaixonar não resistindo ao poder de sedução de um exemplar perfeito e soberbo da bela casta feminina. Pelo meio dos três, os dois vigaristas e a potencial vítima, passeia-se a assistente japonesa dos irmãos Bloom. Ela que dá pelo nome de Bang Bang (Rinko Kikuchi), fala pouco (embora cante nos tradicionais bares de Karaoke de Tóquio) e é especialista em explosões.

O filme é divertido e as falas são de um modo geral inteligentes e de cariz profundamente psicológico. No entanto, o que mais se destaca deste projecto de Rian Johnson é a sua elevada ambição. Se não, vejamos: imaginemos que a todos nos é dada a capacidade de escrevermos o nosso próprio decurso de vida. Que pode haver de mais satisfatório? E se a dada altura esse sonho se desvanece por se tornar de impossível concretização nos for dada a possibilidade – triste mas extraordinariamente romântica – de tudo acabar, isto é, tal como o soldado no campo de batalha morrermos numa das nossas histórias? Ainda para mais sabendo que deixamos um importante legado: o de escrever para alguém que muito amamos um percurso final de vida pleno de felicidade. Poderá haver maior ambição? Creio que não.

Em resumo, apesar de algum desequilíbrio que se percebe, já que o filme não se aguenta por inteiro na dimensão enorme dos objectivos do seu realizador, o saldo final é claramente positivo. Sobretudo quando a história vem acondicionada num embrulho que transluz cinefilia por cada bocadinho da matéria com que foi composto. E se outra razão não houvesse para gostarmos deste filme, a sua capacidade de nos provar que as nossas vidas podem resultar muito mais daquilo que pensarmos para elas que o que na realidade acontece acaba por se tornar num motivo mais que suficiente para conquistar a nossa simpatia. Para além disso, em «The Brothers Bloom», no seu título original, Mark Ruffalo volta a ser o actor que tanto nos prometeu em «Podes Contar Comigo»(2000) e se Adrien Brody está uns furos abaixo daquilo que já nos ofereceu no passado, Rachel Weisz não sabe representar mal. E o seu sorriso, a sua beleza dócil, transporta-nos invariavelmente para a saudade daquele sorriso que nos faz, fez ou ainda fará sonhar. A caneta e o papel estão aí, a história a escrever está no âmago de cada um de nós.


«Os Irmãos Bloom», de Rian Johnson, com Mark Ruffalo, Adrien Brody, Rachel Weisz e Rinko Kikuchi



Um amor maior que a vida

[Cartas de uma Freira Portuguesa - Milo Manara, via E Deus Criou a Mulher]



«Os meus olhos é que perderam nos teus a única luz que os animava.»



Soror Mariana Alcoforado




Não raras são as vezes em que as grandes paixões permanecem eternas, afundadas na tristeza pela privação do outro, serenadas pelo lento passar do tempo que leva à triste resignação da perda. Soror Mariana Alcoforado, nascida e falecida em Beja nos anos de 1640 e 1723, foi uma dessas infelizes protagonistas de um amor maior que a vida. Apaixonada pelo fidalgo francês Noël Bouton (1636 – 1715), na altura em Portugal ao serviço da Cavalaria Francesa no reinado de Luís XIV, por essa paixão ardente a freira portuguesa quebrou o voto de castidade e propôs-se acompanhar o oficial até ao seu país de origem, não encontrando no entanto reciprocidade nesse desejo por parte do seu amado.

Famosa por escrever 7 fabulosas cartas que deram origem a livros e que pela sua beleza estética e fabulosa componente literária inspiraram poetas, escritores, pintores e outros artistas, decorreu em tempos no Real Mosteiro da Nossa Senhora da Conceição, em Beja, uma exposição que homenageia a religiosa portuguesa, que foi escrivã e vigária do templo, com a reprodução de litografias de Henri Matisse e de documentos originais que retratam a sua muito inflamada paixão que em tempo curto descambaria em saudade e dor. Deixo aqui ficar, com este texto, a minha singela homenagem a uma mulher que morreu não deixando que o seu amor morresse em si.





[reposição com nova ilustração]




sábado, 7 de Novembro de 2009

O homem que não sabia viver sem o amor de uma mulher



João Ferro


O João Ferro morreu vai fazer ainda este Novembro 3 anos. Ainda não era velho, pouco mais de cinquenta anos cumpridos, quando se foi deste mundo. Conheci-o por acaso, noite longa de Inverno, noite fria cá fora, lá dentro eu e alguns amigos mais duas ou três bebidas para aquecer a alma e o corpo. Lá dentro do bar nas docas de Lisboa. O João Ferro era o João Ferro. Isto é, como o João Ferro só mesmo o João Ferro, não dava para existirem dois iguais. Falava noites a fio e nós – eu e os outros –, mais jovens que ele, ouvíamo-lo com redobrada atenção.

Calcorreara o mundo.

Fixara-se durante alguns anos no calor abafado de África, na humidade quente das mulheres africanas, dizia sem se cansar de o repetir. Tivera seis mulheres, todas lindas, afiançava com severidade a evitar as dúvidas. E oito filhos. De cinco das seis mulheres. Todas elas muito mais jovens que ele, 13 anos de diferença a última. Ele, João Ferro, filho de um duro Tenente da Força Aérea, jurava nunca ter vivido sem amar. Que amar lhe era tão precioso como o ar que respirava. E não, nunca fizera amor com uma mulher sem sentir uma cumplicidade especial, sem haver forte envolvimento emocional entre ambos. Respeitava as prostitutas mas nunca recorrera a nenhuma.

Por que não, João?, tu que és doido por mulheres, perguntavamos-lhe.

Porque as amava, explicava muito simplesmente. Às mulheres. Franzia o sobrolho, batia com o punho a fazer saltar os copos meio bebidos no balcão do bar e apregoava zangado que o amor não se paga. É uma partilha, defendia.

Partilha de quê, João?

Partilha de afectos, de cumplicidades, de desejos, de paixão. Olha lá, João, essa frase leste-a por aí, brincavam os outros. Mas o João Ferro não era homem de responder a provocações. Quando se deitava a descrever a beleza de uma qualquer mulher que amara, quase que lhe rebentavam de emoção as lágrimas pelo rosto abaixo. Aquela pele macia, suave, as pernas lindas, bem torneadas, os seios rijos, sedutores, a barriga lisa – oh, a barriga! -, os lábios ardentes, aquele mundo de devaneio a abrir-se para um homem! E partíamos.

Partiam ele e ela.

Partiam numa viagem louca, ofegante, transpirada, de chegada em gemida euforia. No fim, o gesto sereno de carinho, as mãos entrelaçadas na união dos corpos ainda soluçantes. Era um poeta, o João Ferro. Depois, meio bebido, meio cansado mas feliz, cabelo bem puxado para trás em gel fornecido pelo seu barbeiro de sempre em Cascais, ar aristocrático, lá seguia no seu Jaguar com 22 anos, matrícula espanhola. De Madrid. Até que um dia, atraiçoado pelo coração que tanta felicidade lhe dera, seguiu viagem num caixão castanho brilhante para o cemitério dos Prazeres. Sim, que o João Ferro não admitia outro cemitério que não aquele para o descanso final.

Dos Prazeres.


sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Desafio: 10 cartões vermelhos






Numa pesquisa um pouco ao acaso no Google, descobri que o Carlos Barbosa de Oliveira, do blogue Crónicas do Rochedo, me lançou um desafio interessante: o de enunciar dez pessoas ou coisas aos quais gostaria de mostrar o cartão vermelho. Como mais vale tarde que nunca, e agradecendo a referência do Carlos, vou então enumerar os meus dez cartões vermelhos. Como já muitos o fizeram, deixo de lado preocupações mais ou menos universais como a fome no mundo, as guerras, o terrorismo e afins.


Sem ordem pré-estabelecida, aqui vão então as minhas ordens de expulsão:


- Para a sensação de impunidade que se vive na sociedade portuguesa. Os tribunais não funcionam e a opinião pública é muito célere a condenar sem grandes preocupações sobre as consequências que podem advir para quem esteja inocente. Também é comum testemunharmos levantar-se a maior suspeição apenas com base no diz-que-disse sobre pessoas que desde sempre tivemos como exemplares e impolutas.

- Cartão vermelho para o pouco civismo que ainda grassa na sociedade portuguesa. Pese todo o avanço tecnológico, de infra-estruturas e outros elementos estruturantes e civilizacionais que nos têm aproximado dos demais povos europeus, nomeadamente os que se encontram no norte da Europa, o facto é que em termos educacionais e de princípios básicos para se viver bem em sociedade estamos ainda muito aquém.

- A todas as pessoas que de uma forma ou outra se usam de amigos ou conhecidos para atingir determinados fins ou mesmo aquelas que pelos seus actos dão a sensação que a amizade, o amor, o respeito mútuo ou qualquer outro tipo de relacionamento que exista é algo de descartável. Ou seja, usam e deitam fora. E eu acredito que a sociedade tem descambado um pouco para este estado de coisas e a internet não está isenta de culpas já que as ligações vão acontecendo sem que exista uma verdadeira base de sustentação para sobreviverem. Nem mesmo para que se perceba como devem verdadeiramente processar-se as relações entre os seres humanos.

- A tendência que existe no nosso país para se formarem grupos mais ou menos fechados onde está tacitamente vedada a entrada/participação de quem não reúna um certo número de características quase sempre ligadas a um certo e sempre condenável pretensiosismo. Já que estamos no mundo do ciberespaço convido-vos a uma vista de olhos pelas barras laterais dos blogues. Provavelmente, pode até começar-se pela minha escolha de blogues a visitar diariamente.

- Para aqueles que não percebem que uma crítica (de cinema, de teatro, de livros..) é apenas a opinião de alguém e não uma verdade absoluta partindo de imediato para o ataque pessoal ao seu autor apenas porque discordamos do seu conteúdo.

- Irritam-me a falsa humildade, o uso e abuso da ironia, a hipocrisia e o sarcasmo. Preferirei sempre debater argumentos com alguém que se assuma verdadeiramente, por muito que me desagrade ou não concorde com esta ou aquela postura, em detrimento dos que se protegem sob uma capa de falsidade em nome de objectivos um tanto ou quanto obscuros.

- Vivemos na era dos heróis de pés de barro. A facilidade com que hoje em dia nascem heróis é assustadora. Pergunto-me por onde andam os cientistas, os escritores, poetas, os homens que com a sua acção colaboram para a melhoria de vida de outrem… Quem os cala, quem não lhes dá voz?

- Vermelho directo para as forças de segurança que supostamente deveriam proteger o cidadão e não intimidá-lo, atrofiá-lo. Nas estradas não existe prevenção mas sim caça à multa, nas ruas ninguém se sente seguro e sempre que um agente da autoridade se nos dirige por este ou aquele motivo é invariável o seu tom despropositado como se o cidadão comum fosse o criminoso e não a razão de ser da existência de forças de polícia. E por aí fora.

- Vermelho também para a sociedade de classes e disparidade de direitos em que estamos cada vez mais a tornar-nos. Entre muitos outros exemplos, os governantes possuem um estatuto que lhes permite voar nas auto-estradas acompanhados de fortes escoltas policiais, nas grandes empresas os conselhos de administração prevêem prémios milionários para si enquanto recusam aumentos miseráveis para os funcionários de escalões mais baixos, nos hospitais, na educação, as diferenças de poder económico ditam cada vez mais a lei sobre a forma como vai decorrer o acesso à saúde e à educação...

- Muitos cartões vermelhos para quem decide a programação do chamado horário nobre nas televisões, para a quase inexistência de salas de cinema sem pipocas, para a falta de desportivismo que continua a verificar-se entre as diversas partes intervenientes no nosso desporto profissional, nomeadamente no futebol, para os cafés e pastelarias transformados em restaurantes sem categoria nem qualidade, para os serviços de atendimento telefónico onde aguardamos longos minutos para sermos atendidos enquanto nos passeiam de guichet virtual para guichet virtual…


E, por fim, já não contabilizado, um cartão vermelho para mim mesmo por cada vez que, ainda que involuntariamente, abdique de convicções próprias aqui enunciadas por razões que, passe o lugar-comum, a minha própria razão desconhece.


quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Deus e o Diabo na terra do Sol

[Fotografia conceptual - Sandra Sue]




Todos os dias, chovesse ou fizesse Sol, via aquele homem fechar o enorme e pesado portão verde atrás de si e descer penosamente os degraus que davam para um passeio ladrilhado de hexágonos castanhos. Um passeio ainda um pouco longo que pisava indiferente desde a casa isolada que habitava até desaparecer no interior do pequeno café situado na rua principal da aldeia. Eu não teria mais de uns oito anos, mas, por vezes, acompanhado do meu avô que ali se deslocava para comprar tabaco e dar dois dedos de conversa ao gordo e farfalhudo dono do botequim, via-o chegar ao entardecer. Como sempre, num ritual grave e ao mesmo tempo ausente, não pronunciava mais que as palavras capazes de darem a entender o que pretendia – normalmente dois ou três cálices de aguardente ou outra bebida ainda mais forte esvaziados de um sorvo cada um deles. Depois, remexia as mãos nos bolsos das calças em busca de moedas para pagar o consumo e abalava em silêncio pelo caminho que o trouxera.


Aquele olhar magoado, o voluntário isolamento a que se votava do mundo que o rodeava, os gestos repetitivos, o invariável fato escuro limpo mas amarrotado, intrigavam-me. Não teria mais de trinta e cinco anos de idade, alto e magro, cabelo curto que se percebia não ter sido cortado por um profissional do ofício. Na aldeia corriam os mais díspares e disparatados rumores sobre aquele homem enigmático e distante. Vivia com a mãe, senhora austera, de posses, mas pouco quista entre os aldeões. Chegara um, dois anos atrás não se sabia ao certo de que proveniência. Dizia-se que enlouquecera por ter perdido uma fortuna ao jogo, que a loucura lhe viera de anos passados numa prisão de Lisboa a cumprir pena por ter assassinado alguém, que estivera em África e fora um mau líder culpado pela morte de um pelotão inteiro de soldados sob o seu comando. Sobre aquele pobre homem recaíam as mais odiosas suspeitas. Embora na altura nunca tivesse conseguido perceber o que acontecera, apesar de garoto acreditava piamente que o seu crime se resumia apenas ao retraimento relativamente aos restantes, à sua inexplicada desolação.


Certo dia, já de si enegrecido e chuvoso, foi quando a noite já estendia o seu manto negro sobre a povoação que vi um grupo de miúdos a fazer uso da perversidade inconsciente que lhes é própria. Caíam injúrias tremendas sobre aquele que para todos não passava de um estranho e bizarro homem. E para lá das infâmias gritadas, fora autenticamente fuzilado com lama e pedras que o deixaram ligeiramente ferido e enlameado. Depois, fugiram entre os canaviais até que a algazarra que faziam se tornou imperceptível e longínqua. Num estado deplorável, o homem continuou o seu caminho sem fazer um único gesto para retirar das roupas a terra molhada que fora lançada sobre si. Segui-o instintivamente. Quando abriu o pesado portão verde, uma luz tristonha acendeu-se e ao fundo do jardim da casa surgiu uma senhora já com alguma idade. Como a não conhecia não a pude identificar, mas era certamente a mãe. Desde o meu posto de observação, a terra debaixo dos meus pés parecia tremer, o coração pulava no meu peito. Não muito longe, um bando de corvos voava na direcção oposta à minha numa revoada silenciosa. A senhora, ao ver o filho naquele estado, chorou. O filho ao ver a mãe chorar sorriu com ternura e abraçou-a. Não consegui ter certezas, mas pareceu-me que também as lágrimas lhe molhavam o sorriso triste. Depois refugiaram-se ambos no interior da casa.


Soube anos mais tarde que se mudaram para uma aldeia do norte, junto a Vila Real. Soube também que, naqueles anos em que a sua diferença suscitou ódios e incompreensão, recuperava psicologicamente de um abalo terrível: a sua mulher, a mulher que amava, morrera de parto e levara consigo aquele que seria o primeiro filho de ambos. Foi também por esta altura que comecei a perceber que se pode sentir náusea pelas atitudes alheias, que tudo serve para o ajuste de contas das pequenas querelas de aldeia, que o cinismo e a irresponsabilidade humanos rapidamente se transformam em crueldade, que o maior inimigo do homem é e será sempre a sua própria ignorância. E que é possível continuarmos a caminhar no mundo dos vivos mesmo depois de morrermos de amor.


quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Referências de Sempre

[Leon Bakst]




O meu Avô Anastácio, com o seu impecável cabelo invariavelmente curto e penteado a fazer lembrar um oficial da marinha inglesa, sentava-me no seu colo era eu garoto e dizia-me qualquer coisa ininteligível para mim à altura como:

– As referências, as referências, menino, nunca as percas!

E depois dava mais uma baforada nos cigarros sem filtro que adorava fumar e ele mesmo fazia, virava o olhar para o horizonte sem que se lhe percebesse qualquer referência física onde me pudesse orientar, e ficava assim durante largos minutos sem sequer se lembrar da minha leve existência sobre as suas pernas ossudas.

Vem isto a propósito do que me aconteceu, a mim e a um amigo de escola primária, já lá vão muitos anos. Eu conto, fugindo aos sempre maçudos detalhes. No regresso de uma pescaria à cana no Rio Tejo, noite escura já alongada sobre os campos em redor, eu e o J. optámos pelo caminho mais curto de regresso a nossas casas e que se fazia ao longo da linha da Beira-baixa. Esta era, à partida, uma decisão cómoda. Mas não, era uma decisão louvável e mesmo corajosa. É que uns bons 500 metros para sul, que era a nossa direcção de volta, situava-se um dos cemitérios da região. Amedrontados mas de peito cheio, que dos fracos não reza a história, lá caminhámos contando toros de madeira linha-férrea fora. Ia eu para aí nos 87 madeiros em que naqueles tempos assentavam os carris, quando avistei o vulto. Era um vulto negro que mal se distinguia na noite e, coisa difícil para um humano vulgar, suportava um pé no carril da esquerda da linha e outro pé no carril da direita. O cenário piorava porque ali mesmo ao lado viam-se bem brancas no negrume da noite as paredes do local onde se multiplicavam os sepulcros. O tal cemitério.

Foi uma situação aflitiva a que vivemos. O J. olhava para mim aterrado, eu olhava para ele não menos atemorizado e… nada. Não sabíamos qual a melhor atitude a tomar. Ficar ali, tentar o recuo perante o assustador inimigo!? Finalmente, e sem movermos um músculo da boca para pronunciarmos o que quer que fosse, corremos na direcção de uma casa abastada que sabíamos existir por ali. Neste entretanto, a coisa foi-se tal como chegou. Sem avisar, sem se perceber de onde veio e muito menos para onde voltou.

Volto eu agora às referências do meu avô Anastácio, ele que foi uma referência para mim. Morreu anos atrás e nunca cheguei a contar-lhe este incidente. Por um lado com receio de não ser levado a sério mas também porque usara emprestada sem seu conhecimento a cana de pesca que ele mais gostava. Hoje pergunto-me como teria ele agido perante uma situação como a descrita? Apetece-me acreditar que se dirigiria até junto do vulto não identificado, se apresentaria educadamente à figura e, sem pejo algum, oferecer-se-ia para lhe fazer um dos seus cigarros antes de se sentarem os dois nos carris a fumar sossegadamente e a comentar como as águas do rio, de tão calmas, andavam bem más para a pesca à vara solta. Como afinal ele tanto apreciava.
[Reposição]

Quem disse que não há coincidências?




[Francisco Moita Flores]



Não importa se grande se não tão grande assim, a verdade é que Francisco Moita Flores é uma das figuras deste início de século. Antigo inspector da almofada da justiça conhecida como PJ, escritor incansável de livros e (tele)novelas, autarca de eleição na escalabitana capital do Ribatejo, não é por ter há tempos achado que a justiça deve perceber e diferenciar quais são os corruptos bons e os corruptos maus que lhe vamos retirar o mérito de quem procura construir meritoriamente a vida dando aos outros algo de si e não se fica por passear-se simplesmente por este nosso What a wonderful World. No entanto, tal como refere um conhecido meu, há uma passagem na minha vida ligada a Moita Flores, a qual este desconhece totalmente, que me fez acreditar que as coincidências existem e cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém quando falamos dos outros.

Viajando em trabalho na TAP de Bruxelas para Lisboa, eu e um colega meu da altura folheávamos um dos jornais que simpaticamente as hospedeiras de bordo nos oferecem para ajudar a queimar o tempo e algumas pestanas. Estávamos na época do florescimento de Moita Flores como escriba de livros e uma das notícias dava precisamente conta de um evento ligado ao lançamento de uma das suas primeiras obras. Recordo-me de ter feito um comentário respeitoso, sim, mas, confesso, não muito lisonjeiro para o escritor Moita Flores que despertou um sorriso de concordância no João A. Sentados lado a lado numa daquelas fileiras de três lugares próprias dos A321 da Airbus, acompanhava-nos na circunstância um tipo ainda jovem, meio forte a caminho do gordo e barba grande. Ao ouvir as minhas palavras, esqueceu a revista em que parecia embrenhado e virando-se para mim alertou-me em tom pouco amistoso: cuidado com o que diz, esse senhor é meu pai. Juro que por momentos maldisse a sorte e não me sobraram palavras para justificar a liberdade de expressão que me era devida. Ainda para mais ao emitir uma opinião de cariz cultural, já que, afinal, referira-me ao escritor e não ao homem.

Resumindo, conversa daqui, conversa dali, acabámos a falar das mais diversas vertentes do panorama cultural português, e, chegados a Lisboa, despedimo-nos amavelmente. Ainda assim, juro que cheguei a arregaçar as mangas e desapertar o nó da gravata não fosse ter que esgrimir fisicamente argumentos sobre as qualidades literárias de um autor.



terça-feira, 3 de Novembro de 2009

A juventude perdida algures entre o norte e o sul

[Imagem retirada da Internet; não por acaso]




O meu carro não estranha, percorre veloz o alcatrão da A1. Direcção norte, paro na área de serviço de Pombal, entro no restaurante. Assim que me encontro no interior do estabelecimento vejo uma senhora a olhar fixamente para mim. Vestes austeras, rosto sofrido, cabelos brancos bem cuidados, olhos cansados a lembrarem uma juventude perdida. Tem certamente mais de oitenta anos de idade, dirige-se para o local onde me encontro. E fala-me. Pedro, Pedro, por onde tens andado, meu filho? E lança-me o braço apertando com a sua a minha mão. Não, é confusão sua, eu não sou o Pedro, respondo-lhe. Ela retrai-se, dá um passo atrás, contempla-me dos pés à cabeça. Não és o Pedro?, balbucia ainda mais entristecida. Não, tenho pena pelo seu engano, não sou o Pedro. Tento ser carinhoso, ela insiste. Não és o Pedro? E sabes onde o Pedro está? Não sei dele. Não tenho tempo de lhe responder, uma outra senhora, talvez uma irmã, talvez uma simples amiga, pede-me desculpa e sugere à senhora que partam. Ainda consigo perceber que chora. Apeteceu-me chorar com ela.


segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Mulheres. O que mais nos atrai nelas.


[A actriz Scarlett Johansson; ela que tem tudo e nos prende a si por quase nada]





Pode ser um olhar, pode ser um sorriso, pode ser tudo, pode ser quase nada



Hoje dei comigo a tentar perceber o que me atrai numa mulher. Gosto de mulheres bonitas, claro que gosto. E que tenham uma educação esmerada. Serem inteligentes também ajuda, obviamente. Ah, e se reunirem uma mescla de sofisticação e simplicidade nessa ténue fronteira entre ter classe e fugir à enfatuada afectação, tanto melhor. Mas, pergunto-me, num patamar alto de exigência não é isso que em geral os homens gostam nas mulheres? Então onde está a minha diferença, aquele detalhe que prende a individualidade dos sentidos que são os meus?


Claro que omito voluntariamente pormenores como pernas, seios, traseiro e barriguinha lisa. Tudo isto segue no pacote descrito anteriormente como ‘mulheres bonitas’ e, lá está, são características universalmente requisitadas pelos homens numa mulher. Mas não, pode ser um simples gesto no gesto que é dela, uma forma de sorrir num sorriso tímido ou rasgado, os olhos perdidos num olhar indefinido no horizonte, um jeito no jeito de andar, uma mão que afasta do rosto o cabelo que no rosto perturba, o atravessar distraído de uma passadeira sem semáforo verde no branco dos rectângulos em asfalto negro, a contemplação de um livro a ser lido numa mesa de café entre um café quente e um livro que se lê, a distinção de quem a tem e se distingue por não necessitar de a procurar, a complexidade de um semblante nostálgico, pensativo, nostálgico, pensativo…


Concluo, pode ser tudo e também pode ser quase nada. Porque cada mulher é um mundo novo e desigual que se tem vontade de descobrir. Ou não.




[reposição]

Adeus, António Sérgio. Obrigado.






Nos meus tempos de crítico de cinema em ‘part-time’, era comum nos visionamentos de imprensa dos grandes filmes surgirem vultos maiores do jornalismo português quer escrito, quer da rádio ou televisão e que normalmente não apareciam. O António Sérgio aparecia poucas vezes e imediatamente se percebia a pessoa que era e se confundia com o admirável profissional da rádio. De roupas em desalinho, cabelo e barba descuidados, despreocupado consigo e interessado naquilo que realmente é importante, humilde, altruísta, era assim o António. Antes do início da sessão ficava a falar com os mais antigos, como o João Lopes, do DN, ou o Manuel Cintra Ferreira, do Expresso. Graças a ser um habitué das sessões de cinema para jornalistas, também eu por vezes me imiscuía na conversa. E apesar do fato completo, da gravata a rigor, da aparente elegância de vestir a que me obrigava a minha actividade profissional principal, era curioso verificar que assim que o António Sérgio falava tudo mudava. A forma como colocava a voz, a serenidade e tonalidade com que o fazia e o total desprendimento intelectual apesar da erudição das suas convicções, imediatamente faziam de mim o desajeitado e do António Sérgio o homem elegante que prendia a atenção dos seus pares.

O António Sérgio vai hoje a enterrar. Obrigado, António.





sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Identidade, Dois




Ainda a propósito desta problemática envolvendo a Identidade e o Politicamente Correcto, sobre o seu livro «O Estrangeiro», Albert Camus escreveu um dia que na nossa sociedade um homem que não chore no enterro da sua mãe corre o risco de acabar condenado’. Camus esclarece depois que o que quis dizer é que 'alguém que não segue as regras do jogo é um estrangeiro na sua própria sociedade e acaba condenado por isso'. E conclui afirmando que 'O Estrangeiro é a história de um homem que, sem nenhuma pretensão heróica, aceita morrer pela verdade'. Quisera cada um de nós ter esta pretensão aparentemente simples e levá-la a cabo vida fora.

Identidade, Um

[O escritor Philip Roth]




Leio algures num sítio da blogosfera uma citação de alguém que diz que jamais devemos justificar-nos; isto porque os nossos inimigos recusam-se a acreditar-nos e os verdadeiros amigos não precisam (de justificações)’. Este pensamento leva-me até um livro maior de Philip Roth, o já anteriormente aqui citado «A Mancha Humana». Pela obra vagueiam duas personagens a reinventarem-se por força da rejeição da sociedade em que estão inseridos. Uma, Coleman Silk, procura libertar-se do estigma racial engendrando para si uma nova identidade; e outra, Fauna, procura na relação amorosa com Silk uma nova oportunidade de redenção e esperança. Não seria necessária a leitura do livro para perceber que algo do género possui um risco elevado de insucesso e de trágico. Daqui se conclui que a única forma de lutar contra a hipocrisia residirá na busca por fazer prevalecer a verdade do que nos individualiza como seres humanos. Mas não sejamos ingénuos, seja qual for a opção que se tome haverá sempre um preço a pagar.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Câmara Lenta




[era tarde já tarde na noite que engrandecia; transpirado dissera-te adeus, desejei-te um bom filme,disse-te até depois]



Sentei-me numa mesa, pedi um café. Ao ver-me de olhar absorto no olhar da mulher apoiada num cigarro aceso na mesa defronte da minha, o empregado informou-me da permissão de fumar naquela ala do estabelecimento. Pode fumar se o entender, murmurou. Olhei-o mas não o vi, senti que o olhar dela me descongelava no corpo o gelado da noite fria lá fora.



[memórias de mim, de outras noites, dos lençóis, os lençóis brancos, os corpos, os corpos entrelaçados um no outro, o meu calor a somar ao calor dela, a força de um abraço, as memórias, uma história por contar; uma noite ela chorou. Chorou sobre a noite escura e, de corpo trémulo, protegeu-se nos meus braços, na força do meu abraço. Como no cinema fizemos com que a acção decorresse em ritmo lento, lento, tão lento, tão lento que parámos de corpos colados um no outro]



Voltei a deter os meus nos olhos daquela mulher defronte de mim. Eu defronte dela. Socorrera-se de um novo cigarro e olhava na minha direcção. Na minha direcção, não para mim, muito para lá de mim, como se eu não existisse, como se eu não estivesse ali, como se o mundo se circunscrevesse a si e às recordações que a faziam existir para lá do seu corpo sentado numa cadeira junto à mesa de um bar. De repente percebi-lhe uma lágrima a rolar pelo rosto, uma lágrima como se tratasse de uma gota de orvalho que se desprende de uma flor e se desfaz violentamente na terra húmida. Sim, aquela mulher tinha uma história de vida por contar, todos temos histórias de vida por contar. Histórias. Olhei a chávena de café que o empregado me servira. A minha mão direita pegou-lhe e trouxe-a até mim, encostei o seu rebordo nos meus lábios e senti o líquido quente, aconchegante, reconfortante. Talvez como os lábios daquela mulher…



[ …talvez como os teus lábios]





terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Filme: O Delator




Banhas, mentiras e cassetes manhosas



Depois de um início de carreira auspicioso com «Sexo, Mentiras e Vídeo», e, pelo meio, com outros sucessos na algibeira como «Traffic», «Erin Brockovich» e a saga «Oceans Eleven, Twelve e Thirteen» o realizador Steven Soderbergh continua a sua caminhada por atalhos e outros caminhos difíceis, locais esses onde podemos encontrar «The Informant», título actualmente em cartaz. E agora que está avisado, segure-se o espectador mais incauto ao banco onde acompanha o realizador nessa viagem atribulada já que compra um bilhete que supostamente o levará até aos anos 90, mas, valha a verdade, mais parece aportar nos anos 70. Ou seja, e já ao jeito de resumo prévio, a comédia dramática acaba mesmo por se transformar numa paródia que só não cai num gigantesco bocejo porque Matt Damon, o gordo e balofo Matt Damon, imagine-se, não deixa que o filme vá por aí.

A história tem base verídica e relata as aventuras e desventuras de um esquizofrénico ambicioso de nome Mark Whitacre (Damon) que não satisfeito com o seu lugar relevante de executivo numa empresa a auferir um vencimento de 350 000 dólares ano antes de impostos, resolve primeiro acusar os seus patrões de práticas ilícitas tendo-se tornado bufo do FBI para a obtenção de provas do crime, e, depois, acaba por culpar o próprio FBI de sevícias sobre a sua pessoa impoluta. Enquanto isto, a realidade dos factos que serve de inspiração ao filme é retratada por Soderbergh de um modo tão cáustico que é o próprio espectador que no final se sente tão mais estranho quanto a esquisitice daquilo a que assiste.

Posto isto, não será difícil perceber que vemos desfilar no ecrã espiões de trazer por casa, agentes da lei com formatura obtida por correspondência e empresários corruptos que, entre nós, nem para dar ainda mais colorido ao apito dourado nos serviam. Temos por cá bem melhor nesta matéria, suspeito. O filme salva-se unicamente pela prestação enérgica de um Matt Damon que engordou duas ou três arrobas para fazer este filme não perdendo com isso energia na língua, já que fala pelos cotovelos e debita mentiras ao ritmo do caudal de saída de água das condutas de Castelo Bode, uma barragem situada algures no Zêzere a poucos quilómetros de Constância.

Dir-se-á que Steven Soderbergh é um génio e que este filme o comprova. Sendo assim, eu assumo não ter estado à altura da sua genialidade já que vi o filme com bastante interesse inicial, mas entretanto este desvaneceu-se em mim e, por esta altura, já o esqueci completamente. Uma só nota final para Matt Damon que levou dois meses a recuperar a sua forma natural. Não tarda nada estamos a ouvir na rádio o anúncio tipo de uma dessas revistas do social a exortar o bom do cidadão a que «saiba como Matt Damon perdeu duas ou três séries de quilos em apenas dois meses; saiba tudo na Caras.» Ou será na VIP?



«O Delator», de Steven Soderbergh, com Matt Damon, outros



domingo, 25 de Outubro de 2009

Siddhartha, 1

[Siddhartha, de Hermann Hesse]






Os domingos sempre tiveram para mim um significado especial. É o único dia da semana em que posso sair à rua e esta se encontra despojada do bulício ruidoso e fumarento dos automóveis e das gentes em passo de corrida cruzando-se indiferentes ao que as rodeia. Neste dia da semana, o silêncio torna-se quase poético e a azáfama inexistente permite-me que saia de casa logo pela manhã, me sente sossegado a tomar café numa esplanada enquanto folheio os três ou quatro jornais que compro no quiosque vizinho à minha pastelaria favorita.

Quem ler este texto vai com certeza questionar-se por que carga de água eu comparo o discurso imprudente, arrogante e anti-desportivo do presidente do meu clube, o Benfica, com uma obra fundamental da literatura de sempre, «Siddharta», de Hermann Hesse. Isto, porque é precisamente de «Siddhartha» e de Hesse que me socorro para recusar o populismo bacoco de um homem com evidentes méritos na recuperação de um clube a sair pelas suas mãos da agonia em que a irresponsabilidade e inaptidão de alguns o colocaram, mas, infelizmente, um homem sem um mínimo de preparação cívica, intelectual e cultural para o lugar que ocupa. Sobretudo quando se dirige aos adeptos, sobretudo quando desrespeita os adversários desportivos com chavões como o que hoje me indignou na imprensa escrita: «Ninguém nos pode parar». Assim, sem menos nem mais.

Sou a favor da grandeza de carácter. Da grandeza na hora de perder, mas sobretudo na grandeza na hora de ganhar, que é, reconheçamo-lo, uma tarefa bem mais complicada de conseguir. Daí atrever-me a aconselhar Luís Filipe Vieira a ler «Siddhartha», partindo do princípio que este tem não apenas a capacidade, que aceito que tenha, como, muito mais importante, a humildade de atender à mensagem presente na obra do alemão Hesse. E nem sequer me refiro à busca de plenitude espiritual que a personagem principal do livro empreende, mas, tão somente, à sua dimensão metafórica aplicada ao quotidiano do cidadão comum.



Siddhartha,2

[Hermann Hesse, Nobel da Literatura (1946) e Prémio Goethe, na Alemanha, no mesmo ano]





Para quem leu o livro, sabe que «Siddhartha» é a história de uma procura. De uma procura que alguém leva a cabo e onde o elemento mais importante não é o ponto de chegada mas sim o percurso realizado para lá chegar. Siddhartha é um jovem indiano bem-nascido mas totalmente insatisfeito com a vida que tem. Resolve então partir à aventura na tentativa de encontrar aquilo que o pode completar, embora, à partida, não lograsse perceber o que procurava. Nessa busca, de anos, experimentou de tudo. Entregou-se à luxúria, ao jogo, tornou-se asceta e interagiu com as mais variadas personagens conhecendo os múltiplos aspectos da vida.

Ou seja, um homem que tinha tudo percebeu que sem passar por privações, sem conhecer o desânimo ou o sabor amargo da derrota, sem ter a necessidade de se reinventar para ultrapassar obstáculos conhecendo a dor e o sofrimento, jamais conseguiria identificar a felicidade e lidar com ela caso existisse no seu todo. E este é, quanto a mim, um dos maiores problemas da nossa sociedade que se vêem reflectidos nas figuras mediáticas que se mostram tão pequeninas perante as questões existenciais que obrigatoriamente deveriam acompanhar-nos no dia-a-dia. Com isto quero apenas dizer que mais do que gritar que ninguém nos pode parar, eu preferiria que alguém responsável tivesse a lucidez de exortar a que nós, os adeptos, rejubilássemos com cada novo jogo, vivêssemos uma rivalidade saudável a cada nova jornada e que nos deixassem sorrir com a beleza do futebol não nos retirando o prazer que advém da ultrapassagem dos mais diversos obstáculos e, tal como na história de Siddhartha, o indiano, saborearmos o sabor amargo da derrota para melhor percebermos o doce sabor da felicidade caso a vitória aconteça. Caramba, será isto pedir muito?



sábado, 24 de Outubro de 2009

O evangelho segundo Freud




«Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa.»



Sigmund Freud


Mulher de sonho




Nos contos de fadas não há lugar para surpresas desagradáveis e tudo acontece ordenadamente até ao também harmonioso final. De certo modo, se a nossa vida decorresse como nas histórias de infância teríamos a felicidade garantida. Mas como a perfeição não existe, essa seria uma felicidade cozinhada em lume brando onde não há lugar para a ansiedade pelo tempo que se espera, para o desaire ou para a conquista, para o ardor, para a paixão. Assim sendo, deixemos as fadas no seu mundo e aceitemos as vibrações que a vida nos transmite mesmo que por vezes tenhamos que rebobinar as nossas emoções e obrigar-nos a que tudo volte ao início.

Não será surpreendente para quem quer que seja se aqui disser que gosto de escrever. A escrita permite que moldemos o mundo sob o nosso ponto de vista e dêmos à vida os contornos que muito bem nos aprouver. Neste âmbito, sempre tive uma ideia romântica da mulher e embora no decurso da vida sejamos assaltados por pensamentos parasitas e ensaiemos alguns passos de dança com corpos estranhos a esse ideal, o perfil dessa mulher – que não está vedado a pequenas variações – está criado, existe.

Imaginemos que estou na sua presença e a olho enquanto trocamos breves palavras. O seu rosto, de finos traços femininos bem definidos, deixa escapar uma áurea nostálgica que permite adivinhar a preferência por um sorriso franco que transmite um sentimento em detrimento de uma gargalhada forte que surge apenas como resultado de um reflexo. Estamos numa sala movimentada, muito iluminada, e a luz forte incide sobre si. Os seus olhos, castanhos, adquirem então um delicioso colorido de avelã. Tem os cabelos, também eles castanhos, apanhados, e fala num tom de voz suave que altera de quando em vez para se poder fazer compreender no meio do ruído dominante. Parece não ter ainda percebido que os olhos brilhantes, sim, os seus olhos castanhos brilhantes, exprimem para o mundo exterior as emoções que procura reter interiormente. Ou talvez perceba, já que procura escondê-los amiúde fugindo com o olhar até o deter em locais vagos e incertos. Tem um corpo lindo, perfeito, é uma mulher elegante. E sofisticada sem que procure trabalhar este pormenor. Mas não necessita fazê-lo, a sofisticação é-lhe inata e emprega-a com toda a naturalidade do mundo. Gosta de se manter em forma, vive na cidade grande longe do local onde nasceu, cresceu e se fez mulher. Na conversa que mantemos, diz-me – imaginemos – que adora um bom livro e é fã de cinema. De todas as características enunciadas, destacam-se a delicadeza e o carinho com que interage com os outros. Isto, embora seja directa mesmo que evite ferir a quem se dirige. Pese tudo o que se disse, tem dificuldade em expor mais de si do que aquilo que dá a perceber involuntariamente. Quando assim não é, quando se liberta, a espontaneidade com que o faz quase provoca que o mundo em seu redor lhe desabe sobre os braços.


Talvez esta mulher não exista, talvez exista apenas neste meu delírio criativo. Para existir na realidade, esta mulher linda, inteligente e culta teria que avaliar Denzel Washington e Kevin Spacey como os melhores actores da actualidade e ter em «Gato Preto, Gato Branco», de Emir Kusturyka, o seu filme favorito.




Parabéns



Distraído como tenho andado nos últimos dias, só hoje soube que o meu amigo António Serrano foi o escolhido por José Sócrates para Ministro da Agricultura. Paulatinamente, o António tem vindo a construir uma carreira competente e sólida na administração pública. E esta é uma distinção mais que merecida. Parabéns e felicidades.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

A complexa aurora do amor...





«Por que é que ela continuava a resistir a si mesma, perguntava-se. Que receava, quais seriam os seus medos? Intempestivamente despediu-se dela, que, delicadamente, quase carinhosamente, se aproximara de si, lhe falava e lhe sorria. Despediu-se como se não voltassem a ver-se mais afastando-se alguns metros do local onde se encontravam. És um idiota, pensou de si intimamente. Sabia bem que não era aquilo que desejava. Pareceu-lhe senti-la repentinamente entristecida, quis acreditar que também ela não queria aquele desfecho. Passou a aula sem conseguir aplicar-se ou prestar sequer atenção à professora. Embora não estivesse nos seus planos, assim que a aula acabou dirigiu-se à secretaria e inscreveu-se para a sessão de três horas do dia seguinte. Precisava revê-la, mostrar o seu arrependimento, pedir-lhe desculpa. Não tinha qualquer outro meio para o fazer. Ficou a torcer para que ela reservasse um lugar para si junto ao seu.»


In Contos Inacabados, de L. A.


quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Prémio Português Suave




Jornal i


[prémio atribuído por unanimidade e aclamação]

Um livro, um filme - Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal


[Esta noite, 1.30 da manhã, Canal Hollywood]



Para quem gosta de uma boa adaptação de um livro ao cinema, não pode deixar de ver «Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal», realizado em 1997 por Clint Eastwood. Para essa excelente transposição muito contribuem as fabulosas interpretações de Kevin Spacey e John Cusack, sendo que este último é um jornalista deslocado para a sulista Savannah a convite do excêntrico milionário Jim Williams (Spacey).

Inicialmente destacado para elaborar um trabalho no domínio do social, um crime vai no entanto fazer com que John Kelso (Cusack) entre na intimidade de uma cidade muito peculiar onde os vivos se movem na dependência dos mortos e de supostos poderes ocultos de personagens estranhas num mundo já de si pouco convencional. Esta envolvência enigmática a par do clima quente da região e da excelente pronúncia daquela zona do estado da Geórgia, sul dos EUA, que os actores e a realização exploram muito bem e muito a propósito, transmitem ao espectador as mais realistas fragrâncias de uma sociedade que se foi construindo alicerçada em valores muito próprios, alguns deles fora do comum.

Pelo filme passeia-se ainda Jude Law em início de carreira, enquanto que para Clint Eastwood esta foi uma das primeiras provas de fogo a que se propôs na tentativa de revelar (com enorme sucesso) o seu ecletismo como realizador de cinema. Para quem tenha lido o livro de John Berendt, fica ainda a certeza de observar o mesmo espírito criativo em dimensões narrativas diferentes: a literatura e o cinema. A não perder.


«Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal», livro de John Berendt, filme de Clint Eastwood


terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Viver o sonho





A propósito de um pequeno filme de inícios da década de sessenta


«La Jetée» é um filme francês datado de 1962, escrito e realizado por Chris Marker. Invoco-o para relembrar o estranho fascínio que o seu argumento sempre exerceu sobre mim. Talvez porque nele se juntem elementos que reputo de fundamentais da vida. Como o são a paixão, o sonho e, inevitavelmente, a morte.

Tudo se desenrola a partir de uma imagem de infância a atormentar a vida de um homem. Essa imagem prende-se com a visão de uma mulher de pé junto a uma enorme queda de água e, junto a si, a queda de um corpo. Tudo isto se passa alguns anos antes de mais uma guerra mundial que viria a destruir totalmente Paris. Anos depois, nos subterrâneos da cidade luz uma equipa de cientistas ensaia viagens no tempo e esse homem, graças à sua obsessão, é o escolhido para efectuar uma expedição ao passado. E é assim que se vê perante a jovem dos seus sonhos o que permite que a sua fixação se torne numa doce realidade. Mas ao correr para os braços da mulher, cai fulminado aos seus pés. Ou seja, o corpo que durante anos viu projectado cataratas abaixo era o seu, a imagem que o perseguia era a da sua própria morte.

Convém explicar o porquê do meu fascínio por este argumento aparentemente simples mas de interpretação bem mais complexa. Porque a imagem que atormentava aquele homem se tornara num sonho que urgia concretizar. Mas, como revelei atrás, essa concretização encerrava afinal um desfecho dramático. Um final que, ironicamente, valoriza ainda mais aqueles que nunca abandonam os seus sonhos, apesar de perceberem que podem estar a trilhar um caminho que os conduz não à felicidade procurada mas a inesperados e bem dolorosos desenlaces. Ainda assim, lutam, correm, não desistem, persistem no sonho. E se atingido positivamente o objectivo desejado, essa incerteza de que estão seguros mas que se mostra insuficiente para os fazer parar, aliada à paixão que os faz correr, só pode resultar em indescritível prazer.

Voltando ao cinema, com este filme se prova que uma das suas facetas mais compensadoras para o espectador se prende com narrativas que se desenvolvem a partir das mais extraordinárias surpresas que o mundo nos reserva. Por muito dramáticas que estas possam revelar-se.



Sumo natural de laranja




Há dias, numa das minhas inúmeras visitas ao norte do país, fui obrigado a uma refeição rápida num café nas imediações de Barcelos. Foi uma senhora de cerca de sessenta anos quem me serviu. Pedi um prego no pão, bem passado para não ter que lutar com a carne para a conseguir mastigar, e perguntei se tinham sumo natural de laranja. Pois que sim, que tinham, disse-me simpaticamente a referida senhora. Minutos mais tarde, muito contente, colocou sobre a minha mesa a sandes e uma lata de Sumol de laranja saída do armário e não do frigorífico. Ou seja, sumo de laranja natural. Juro-vos, ao invés de ficar zangado com a doce senhora deu-me vontade de a abraçar perdoando de imediato o seu erro. Comi a sandes de carne, bebi o Sumol, paguei e saí para a rua debaixo do sorriso maternal daquela mulher tão portuguesa. Estou convicto, é também de pessoas assim, humildes, de uma pureza inequívoca que faz com que tudo se lhes desculpe, que se vai construíndo a identidade de um país, o nosso, e a par enriquecemos com mais uma experiência melíflua que guardamos para sempre nas nossas memórias.


segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

O amor não pode esperar




Esta tarde tive uma reunião de trabalho num edifício de escritórios na Quinta da Fonte, concelho de Oeiras. Depois de circundar com o carro vários blocos empresariais, deparei com o local que me fora descrito. Tendo reparado ser um pouco cedo para a hora marcada para o encontro, ainda assim saí do automóvel logo que consegui estacionar, dirigi-me para a porta principal do prédio e entrei. Uma recepcionista, muito profissional e elegante, conduziu-me até uma pequena sala decorada quase na totalidade por estantes repletas de livros. Serviu-me um café e, delicadamente, pôs-me à vontade. Enquanto esperava, bisbilhotei as estantes puxando para mim alguns dos livros. A certa altura estranhei a presença da obra de Gabriel Garcia Marquez, «O Amor nos Tempos de Cólera», entre inúmeras enciclopédias, manuais técnicos e dicionários. Folheei a pungente história de amor de Florentino Ariza por Fermina Daza e, entre as páginas de paixão e espera pelo outro, vislumbrei um pequeno bilhetinho certamente ali esquecido por alguém. Aparentemente, era de um homem para uma mulher e pese as parcas e muito simples palavras pareceu-me pleno de significado. E de referência a um amor não correspondido.



«Como muito bem disseste, Sílvia, nada sei de ti. De ti nada me disseste e apenas sei aquilo que fui percebendo em mim. Obrigado pelo teu conselho. E, embora me tenhas feito acordar dele, obrigado também pelo sonho.»



Não estava assinado. Também não tive muito mais tempo para pensar no assunto já que entretanto a pessoa com quem me ia reunir entrou e obriguei-me a arrumar de novo o livro na estante de onde o retirara por momentos. Mas tive o tempo suficiente para perceber que, para aquele desconhecido, a vida acontecera e não lhe restara mágoa apesar do seu princípio de paixão não ter sequência nem correspondência na mulher a quem chamava Sílvia. Ironicamente o mesmo acontecera a Florentino Ariza, de Gabriel Garcia Marquez. Mas este tivera a coragem de esperar cinquenta anos por Fermina Daza, o amor da sua vida. No entanto, por muito respeito e admiração que sinta pelo velho escritor latino-americano, acredito que ninguém merece esperar tanto tempo para amar. Entrámos na sala de reuniões onde nos esperava um espanhol que falava inglês como a generalidade dos espanhóis falam a língua de Shakespeare, bastante mal. Parecem cuspir as palavras.